Os relatos da líder opositora da Venezuela, María Corina Machado, sobre sua breve detenção na véspera da terceira posse consecutiva do ditador Nicolás Maduro é consistente, disse a Human Rights Watch (HRW) nesta quarta-feira. A organização internacional de defesa dos direitos humanos checou uma série de vídeos e uma fotografia que comprovam a abordagem da polícia venezuelana ao comboio no qual María Corina se deslocava após participar de uma manifestação em Caracas para repudiar a continuidade do chavista no pode no início deste mês.
Na ocasião, membros da oposição venezuelana, meios de comunicação e jornais locais relataram que María Corina foi cercada por agentes de forças de segurança do regime e retida por um curto período de tempo. Nesse período, segundo informou posteriormente o Comando Venezuela, órgão de coordenação da oposição, a líder opositora foi obrigada a gravar vídeos. Num desses vídeos, María Corina aparece dizendo estar “bem e a salvo”. Essas versões foram negadas pouco depois pelo ministro do Interior, Diosdado Cabello, segundo analistas locais o homem que comanda a nova e violenta ofensiva chavista contra a oposição.
De acordo com Juanita Goebertus, diretora da divisão das Américas da HRW, os relatos de María Corina são consistentes com imagens verificadas pela organização.
“Em 9 de janeiro, aproximadamente às 14h30 (horário de Caracas), Machado participou de um protesto da oposição em Chacao, Caracas”, informou Goebertus nesta quarta-feira, em publicação na rede social X. “Essa foi sua primeira aparição pública após meses se escondendo para evitar ser presa.”
A Human Rights Watch verificou três vídeos que mostram membros da divisão motorizada da polícia dentro e ao redor do protesto. No primeiro vídeo, é possível ver a polícia abrindo caminho entre a multidão em motocicletas. O relógio de um policial indica que eram 15h10 (horário local), relata Goebertus.
O segundo vídeo mostra alguns policiais da mesma divisão indo para o leste na Avenida Libertador, perto do protesto. E as imagens de uma terceira gravação, filmada por volta das 16h (horário local), mostram homens em motocicletas perto da distribuidora Altamira. No vídeo, eles aparecem interceptando outra motocicleta com duas pessoas, a um quilômetro de onde ocorreu o protesto.
Também foi analisada uma fotografia, tirada em local desconhecido, que mostra María Corina cercada por homens das forças de segurança venezuelanas, incluindo um com uniforme da divisão motorizada da polícia.
No dia do incidente, María Corina publicou um vídeo em suas redes no qual aparece dizendo que “saíamos de uma concentração maravilhosa e minha bolsa caiu… já estou bem, a salvo. A Venezuela será livre”. Num primeiro momento, o vídeo causou confusão. Especulações sobre a utilização de ferramentas de inteligência artificial circularam em Caracas, mas rapidamente fontes próximas à líder opositora confirmaram que as imagens eram verídicas.
As versões dadas pela oposição foram consideradas uma “invenção” por Cabello, número 2 do regime venezuelano e hoje o homem que comanda as principais forças de segurança do país. Segundo o ministro do Interior, para muitos o principal rival de Maduro dentro do chavismo, María Corina “inventou” uma suposta operação para chamar a atenção da comunidade internacional um dia antes da posse do presidente.
— Eles queriam alarmar toda a Venezuela e, no final, acabaram com o ridículo do ridículo, mentindo, dizendo que o governo havia capturado María Corina — afirmou Cabello no canal estatal VTV durante uma marcha do chavismo. — Ela está louca para que o governo a capture, e esse era seu plano: dizer que foi pega, para ver o que ela pode fazer.
(Colaborou Janaina Figueiredo)
Fonte: O Globo
