Reforma em Cuba não é capitalismo, mas tentativa de burlar bloqueio

26/02/2026 - Foto da cidade de Havana em Cuba. Foto: afroangelll/Pixabay
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A reforma econômica e do Estado em Cuba, discutida nesta quinta-feira (18) na Assembleia Nacional do país, não é capaz de levar a ilha para uma economia capitalista, sendo mais uma tentativa “desesperada” de burlar o bloqueio imposto pelos Estados Unidos (EUA). A avaliação é do professor e especialista em economia latino-americana Maicon Cláudio da Silva, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

“São medidas, quase que desesperadas, para dar algum tipo de respiro à economia cubana, especialmente por meio da flexibilização tanto dos investimentos estrangeiros quanto das importações de mercadorias. Isso em um momento em que a economia do país tem suas duas principais fontes de recursos atacadas [turismo e exportação de serviços médicos]”, comentou à Agência Brasil.

“São medidas, quase que desesperadas, para dar algum tipo de respiro à economia cubana, especialmente por meio da flexibilização tanto dos investimentos estrangeiros quanto das importações de mercadorias. Isso em um momento em que a economia do país tem suas duas principais fontes de recursos atacadas [turismo e exportação de serviços médicos]”, comentou à Agência Brasil.

Para o especialista, que estuda a realidade cubana, as medidas anunciadas aprofundam e dão continuidade a outras já adotadas na ilha, como a permissão para pequenas propriedades produtivas e a reforma monetária de 2021.  

O professor de economia Maicon da Silva lembra que o bloqueio dos EUA não afeta apenas as relações comerciais entre Cuba e norte-americanos, mas entre Cuba e todos os países do mundo.

“Os EUA são uma potência imperial e econômica que, na verdade, controla o sistema financeiro e a economia mundiais. Navios que levam mercadorias para Cuba ficam proibidos de atracar nos EUA por um tempo. Empresas que comercializam com Cuba são punidas e ficam impedidas de comercializar com os EUA”, destacou o especialista.

Com o endurecimento do bloqueio no atual governo de Donald Trump, abandonaram as atividades em Cuba, nos últimos meses, empresas aéreas e grandes redes hoteleiras, como as espanholas Meliá Hotels International e Iberostar, além dos cartões Visa e Mastercard, que deixaram de operar no país de quase 11 milhões de habitantes.  

A economia cubana depende, principalmente, do setor do turismo e da exportação de serviços médicos para ter acesso a divisas, como são chamadas as moedas usadas para importações. 

A Casa Branca tem pressionado os países a romperem contratos com médicos cubanos.  

A reforma econômica debatida em Cuba prevê alterações nas políticas fiscal, cambial, de comércio exterior, nos subsídios, além de uma reestruturação do Estado cubano, com descentralização política e liberalização econômica. Tudo isso com a promessa de manter o objetivo de promover justiça social e combater as desigualdades sociais.

O professor da UFRRJ Maicon da Silva descarta uma transformação liberalizante com capacidade de transformar a economia de Cuba para o modelo capitalista.

“A partir de um ponto de vista ideológico, tem gente que afirma que as medidas aproximam Cuba do capitalismo. Só que, enquanto existe bloqueio, é impossível o surgimento de uma burguesia, porque a própria acumulação de riqueza, em Cuba, é bloqueada. Uma burguesia não consegue se desenvolver como em outros países que não sofrem essas sanções”, avalia.

“A partir de um ponto de vista ideológico, tem gente que afirma que as medidas aproximam Cuba do capitalismo. Só que, enquanto existe bloqueio, é impossível o surgimento de uma burguesia, porque a própria acumulação de riqueza, em Cuba, é bloqueada. Uma burguesia não consegue se desenvolver como em outros países que não sofrem essas sanções”, avalia.

Maicon também destaca uma transformação em Cuba, como a da China da década de 1980, que levou o país asiático a construir um “socialismo de mercado”, que combina mercado privado com controle estatal da economia.

O professor lembra que os EUA foram um parceiro da China no desenvolvimento econômico do país asiático, o que não ocorre com Cuba.

“O desenvolvimento chinês está ligado ao desenvolvimento da economia dos EUA, que têm empresas por lá, como a Tesla [do Elon Musk]. No caso de Cuba, isso não acontece, o que limita a possibilidade de uma aproximação de Cuba com o modelo chinês”, ponderou.

O programa de reformas cubano inclui mais de 20 medidas com o objetivo de incentivar o investimento estrangeiro direto, ampliar a autonomia de gestão das empresas estatais, descentralizar as decisões políticas, aumentando o poder dos municípios.

Além disso, estão previstas medidas para ampliar as possibilidades de participação de acionistas em empresas cubanas, com mudanças ainda nos setores de turismo e imobiliário, assim como mudanças no sistema de subsídios da economia.

O bloqueio econômico contra Cuba, que já dura quase 70 anos, foi endurecido pela atual administração da Casa Branca no final de 2025, a partir das restrições navais impostas à Venezuela que, até então, era a principal fornecedora de petróleo à ilha caribenha.

Em janeiro deste ano, os EUA aumentaram o bloqueio ao ameaçar com sanções quem vendesse petróleo para Cuba. A nova medida levou o país a ficar três meses sem receber uma gota de petróleo.  

Nas últimas semanas, o Departamento de Estado dos EUA aumentou a pressão contra Cuba com novas sanções aos setores de turismo, mineração de ouro e contra a estatal do petróleo.  

As medidas da Casa Branca têm causado o aumento dos apagões, a elevação dos preços de produtos básicos, a redução do transporte público e a oferta da cesta básica alimentar subsidiada pelo Estado. 

Para moradores de Havana consultados pela Agência Brasil, este é o pior momento do país.

Fonte: Agência Brasil

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