Líder de oposição na Venezuela foi forçada a gravar vídeos após sequestro, diz oposição

María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, durante ato em Caracas em agosto
María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, durante ato em Caracas em agosto — Foto: Juan BARRETO / AFP

A oposição ao regime de Nicolás Maduro na Venezuela anunciou no início da noite desta quinta-feira (9) que a líder do bloco, María Corina Machado, foi obrigada a gravar vídeos após ser sequestrada por agentes da ditadura chavista. María Corina, impedida de concorrer nas eleições presidenciais de 2024, foi interceptada a tiros nas ruas de Chacao, cidade no entorno da capital Caracas.

Enquanto a informação de sua prisão repercutia internacionalmente, perfis ligados ao chavismo passaram a disseminar a narrativa de que a detenção era uma informação falsa alimentada pelos oposicionistas. Integrantes do alto escalão de Maduro divulgaram ainda um vídeo de María Corina de capuz em uma quadra esportiva informando, com a voz baixa, estar bem e segura. A veracidade da gravação, no entanto, não foi confirmada imediatamente por aliados da líder opositora questionados pelo blog.

A nota do Comando Con Venezuela parece fazer menção ao vídeo e afirma, ainda, que María Corina irá esclarecer o que ocorreu durante seu sequestro.

“Hoje, 9 de janeiro, saindo da manifestação em Chacao, María Corina Machado foi interceptada e derrubada da moto na qual estava. No processo, foram disparadas armas de fogo. Ela foi levada à força. Durante o período de seu sequestro ela foi forçada a gravar vários vídeos e logo após foi liberada. Nas próximas horas ela se pronunciará ao país para explicar os acontecimentos”, diz a nota.

Nós apuramos junto a pessoas próximas de María Corina que tiros foram disparados contra a líder opositora, que havia deixado minutos antes uma manifestação contra Maduro. O sequestro ocorre na véspera da data prevista na Constituição da Venezuela para a posse do presidente eleito. O chavista proclamou vitória antes do término da apuração em julho passado, sem nunca ter apresentado as atas eleitorais que corroborariam sua eleição.

Já os oposicionistas têm apresentado atas que indicam a eleição do candidato apoiado por María Corina, Edmundo González Urrutia, hoje exilado na Espanha. Antecipando a possibilidade do regime chavista forjar os resultados, a oposição se mobilizou antes da eleição presidencial para coletar os documentos e conduzir uma apuração paralela. Eles afirmam ter computado 81,7% dos comprovantes e projetam uma vitória esmagadora de González com 67% dos votos.

As atas nada mais são do que boletins de urnas que, como no Brasil, são emitidos pelas máquinas após o encerramento da votação tanto para a conferência dos resultados pela população e por fiscais quanto para auditar os votos computados, totalizados e disponibilizados pela autoridade eleitoral, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Os resultados não foram reconhecidos até o momento por importantes países vizinhos, como o Brasil e a Colômbia.

María Corina Machado havia convocado a manifestação em Chacao para pressionar o regime na véspera da posse de Maduro.

Às 17h06m, no horário de Brasília, González se pronunciou nas redes acerca da prisão da aliada e padrinha política.

“Como presidente eleito exijo a soltura imediata de María Corina Machado. Às forças de segurança que a sequestraram, lhes digo: não brinquem com fogo”, publicou o político no X.

De acordo com informações preliminares, ela era acompanhada por um comboio de motos de apoiadores que faziam sua escolta. Eles também teriam sido atacados por agentes do regime. A líder vivia na clandestinidade desde o ano passado, quando entrou na mira da Procuradoria-Geral da Venezuela.

Na ocasião, o procurador-geral chavista, Tarek William Saab, anunciou a abertura de um inquérito criminal contra María Corina e González por instigação à insurreição e à desobediência de leis, além de “usurpação de funções”, “disseminação de informações falsas” e conspiração, após os dois divulgarem uma carta pedindo para que as instituições da Venezuela “procedam” a proclamação de González como presidente eleito.

Na época, María Corina chegou a afirmar em um artigo publicado no The Wall Street Journal que temia pela sua vida.

Com larga experiência na política partidária da Venezuela, María Corina foi escolhida para representar o bloco de oposição na eleição presidencial de 2024 – uma mudança de estratégia em relação ao pleito de 2024, quando o grupo optou por boicotar a disputa e denunciar a intenção de Maduro de se perpetuar no poder.

Sua candidatura, no entanto, foi barrada pelo chavismo, assim como a de sua substituta, a professora universitária Corina Yoris. A oposição escolheu, então, o diplomata Edmundo González, que foi habilitado pela Justiça Eleitoral venezuelana e disputou contra Maduro.

A Justiça Eleitoral venezuelana declarou a reeleição de Maduro com 51% dos votos – um resultado que boa parte da comunidade internacional e observadores eleitorais como o Carter Center não reconhecem por não terem tido acesso às atas.

Fonte: O Globo

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