Conflitos, problemas mentais e sequestros: procura-se desaparecidos

O potiguar Edson Pereira, 59 anos, tem vivido uma verdadeira aflição nos últimos dias, em Natal.  É que o filho dele, o higienista Eliud Araújo de Lima, 35 anos, simplesmente desapareceu na última terça-feira (30) e não deu mais notícias. O pai não faz ideia de onde o jovem está e pede ajuda por informações para encontrá-lo. O drama do sumiço de parentes e familiares não é exclusivo de Edson. Todos os dias, pessoas desaparecem, por motivos diversos, e deixam as famílias em verdadeira aflição em busca de informações. No Rio Grande do Norte, segundo informações da Polícia Civil, foram feitos pelo menos 103 registros de pessoas desaparecidas até abril deste ano.

“Estamos aflitos, indo para todos os lados para ver se temos uma noção para ver onde ele se encontra. Fomos em todos os cantos, hospitais, Itep, mas não tem nada dele”, comenta o pai de Eliud. O jovem saiu de casa por volta das 10h e não deu mais notícias. Segundo o pai, ele tem passado por acompanhamento terapêutico em virtude de problemas em relacionamentos.

Desde 2020, a Polícia Civil criou um Núcleo de Investigação Sobre Pessoas Desaparecidas (NIPD) com o objetivo de abrir procedimentos policiais para apurar o desaparecimentos, além de executar e/ou difundir pedidos de localização de pessoas em Natal e região metropolitana. Segundo dados repassados à TRIBUNA DO NORTE, em 2021, foram 290 B.Os registrados, sendo 254 elucidados, 243 voluntários, 6 presos, 2 mortos, 2 com conclusão pela morte e ocultação de cadáver com envolvimento de facção e 1 feminicídio com ocultação de cadáver. A delegacia não informou a quantidade exata de pessoas desaparecidas em Natal.

De acordo com o delegado da 9ª DP, especializada em desaparecimentos, Cláudio Henrique Freitas, o desaparecimento é um crime “complexo” e envolve uma série de fatores. De acordo com ele, a maioria dos desaparecimentos são voluntários e 80 a 90% retornam ou aparecem em 48h.

“A partir do momento em que se registra o B.O, começam as diligências. Não existe uma fórmula, cada caso tem uma demanda diferente. Em alguns deles, checamos com amigos, familiares e se localiza essa pessoa. E tem casos mais complexos que precisamos solicitar quebra de dados, telemática”, explica. Ele aponta que de todos os casos que a DP pega, menos de 10% são relativos a sequestros ou outros crimes.

“Diferentemente do homicídio, em que vamos começar por onde o corpo que foi encontrado, o desaparecimento não se sabe por onde começa. Quanto antes for registrado esse boletim de ocorrência, melhor para tentarmos buscar onde foi que essa pessoa foi vista pela última vez”, acrescenta. Outra dificuldade é que, em casos de pessoas que reaparecem, as famílias dificilmente notificam à Polícia Civil.

Outro caso que tem chamado a atenção no Rio Grande do Norte é o sumiço da dona de casa Evanikely Francisca Costa da Rocha, 36 anos, moradora da zona rural de Lagoa Salgada, e seus três filhos, Eloisa, Evani e João Victor, de 6, 3 e 4 anos, respectivamente. Ela está desaparecida desde o dia 29 de julho e não há informações sobre seu paredeiro. Segundo a irmã, Anny Rocha, ela passava por problemas conjugais com o companheiro.

“Ela nunca fez isso, de desaparecer e não dar informações para família. Ninguém tem notícia, ninguém sabe de nada. Já colocamos fotos dela e das crianças em tudo que é canto e não sabemos de nada. Estamos muito angustiados. Todos estão preocupados, porque ela nunca fez isso”, comenta. Anny acrescenta que a irmã não levou documentos.

Um boletim de ocorrência foi registrado na delegacia de Monte Alegre. O caso foi transferido para a 9ª DP em Natal, especializada em desaparecimentos. Segundo o delegado Cláudio Henrique Freitas, diligências já estão sendo feitas e uma parente da mulher, que mora no bairro Nazaré, chegou a ser ouvida, mas ainda não há pistas sobre o paradeiro de Evanikely.

Perfil

De acordo com o delegado Cláudio Henrique Freitas, não há um perfil específico de pessoas desaparecidas. Segundo ele, o sumiço de crianças tem sido algo “raro” na capital potiguar ultimamente.

“Crianças desaparecidas, aqui em Natal, nesse período que estou aqui, é algo raro. Não ocorre com muita frequência. Quando acontece, normalmente, a criança está com um dos pais, nessa disputa de guarda. Tem adolescentes que fogem de casa, idosos com problemas mentais, que fogem, se perdem. É algo recorrente”, comenta.

Segundo Cláudio Henrique Freitas, o desaparecimento é o “crime mais difícil de se investigar”, comenta.

“É o mais difícil porque você não sabe onde começar. No homicídio, se começa pelo corpo, no roubo, pelo local do crime. O desaparecimento não se tem um ponto de partida. E você inicia a investigação com muitas linhas, algo muito aberto, e se perde muito tempo descartando hipóteses. Isso demanda tempo, diligências, e com uma equipe pequena que nós temos, fica difícil fazer a diligência de porta em porta”, acrescenta.

Segundo dados do Anuário Brasileiro da Segurança Pública, o RN registrou 496 desaparecimentos em 2021, contra 223 casos de 2020.

Sumiço de crianças do Planalto segue sem resposta

Um dos casos de sumiços mais emblemáticos do Rio Grande do Norte segue sem solução passados quase 25 anos. O desaparecimento de cinco crianças no bairro Planalto, zona Sul, entre 1998 e 2001, ficou marcado por não ter tido soluções nem pessoas indiciadas. A dona de casa, Francisca Silva do Nascimento Lins, 54 anos, é enfática: sua vida nunca mais foi a mesma depois de que seu filho, Moisés Alves da Silva, à época com 1 ano e 7 meses, foi levado sem deixar nenhum rastro.

“Quando tiraram ele de mim, Moisés não sabia chamar ‘mãe’ nem ‘pai’. Ainda estava aprendendo a engatinhar. Todo final de semana do domingo para segunda lembro dele, porque foi num dia assim. Nunca tive notícia de nada. De nada de nada! Não faço ideia de quem levou ele”, diz a mãe de Moisés em entrevista à TRIBUNA DO NORTE.

O pequeno Moisés foi o primeiro de cinco crianças que sumiram no intervalo de três anos. Ele dormia numa rede que passava por cima da cama dos pais. Na hora que a mãe acordou, só viu uma roupa que restou. Até hoje, nunca mais, não teve mais notícias do garoto, que era o mais novo dos sete filhos.

“Estava eu e meu esposo à época, a rede passava por cima da cama. Estávamos todos dormindo. Levaram ele que a gente não sentiu nada. Quando meu marido acordou para colocar ele na minha cama, que eu ia dar mamadeira e trocar roupinhas, só tava a rede. Ele tava de camiseta, cueca. Levaram ele só com fralda, dois ‘bubus’, um ele chupava e outro cheirava. A roupa ficou de lembrança, mas já perdi. O que tenho dele está aqui”, diz a mãe apontando para um quadro com a foto do filho.

Além de Moisés, também sumiram Joseane Pereira dos Santos, de 8 anos, que foi raptada da casa de uma vizinha. O terceiro sumiço aconteceu em janeiro de 2000, com o rapto de Yuri Tomé Ribeiro, de 2 anos. Três meses depois, o pequeno Gilson Enedino da Silva, 2 anos, também desapareceu. O último caso aconteceu em dezembro de 2001, quando Marília da Silva Gomes, de 2 anos, também desapareceu de dentro de sua residência, onde dormia com a mãe, os irmãos e o padrasto.

Em 2011, foi instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) intitulada “CPI do Tráfico de Pessoas” para apurar uma série de sequestros ocorridos no Brasil entre 2003 e 2011. À época, suspeitava-se que Natal era uma das 240 rotas do tráfico identificadas pela CPI.

“O procedimento se encontra no judiciário, mas não é um processo que não foi concluído porque as crianças não foram localizadas. E de acordo com a lei, um caso só é concluído quando a pessoa é localizada. As diligências possíveis e imagináveis já foram feitas ao longo desses anos e anos. Vez ou outra surge uma informação para chegar, mas não tem mais diligências a serem feitas   depois desses anos. Termina que fica um caso frio, mas ele nunca pode ser arquivado. Nenhuma hipótese pôde ser confirmada ou completamente negada” atualiza o delegado Cláudio Henrique Freitas, da Polícia Civil do RN.

Se estiver vivo, Moisés Alves da Silva já terá completado 24 anos. A mãe dele, Francisca Silva, não perdeu a fé nem as esperanças de rever o filho. “Eu digo a meus outros filhos: se ele aparecesse, meus problemas de saúde sumiriam tudinho. Minha esperança nunca morreu não. Sempre é aquela, de um dia, ele aparecer, não sei de que jeito. E vai, não perdi a fé”, finaliza.

Do Tribuna do Norte