‘O aprendiz’ mostra um Trump que ex-presidente quis impedir país de ver

Sebastian Stan (dir.) como o jovem Trump e Jermy Strong no papel de seu mentor, o advogado ultradireitista Roy Cohn
Sebastian Stan (dir.) como o jovem Trump e Jermy Strong no papel de seu mentor, o advogado ultradireitista Roy Cohn — Foto: Divulgação

Desde sexta-feira no circuito americano e a partir desta quinta nos cinemas brasileiros, “O aprendiz” começa quando Donald Trump é apresentado a Roy Cohn em um clube exclusivo de Manhattan em 1973. Encontro que, desde então, impacta a vida de milhares de cidadãos, americanos mas não só. É o que defende, de forma convincente, em pouco mais de duas horas, o dinamarquês de origem iraniana Ali Abbasi, mais conhecido do público por dirigir os dois últimos e eletrizantes capítulos da série apocalíptica “The last of us”.

Pária social após a exposição de seu protagonismo na máquina de difamação macarthista duas décadas antes, Cohn se reinventara como advogado faz-tudo da máfia e da elite corrupta nos corredores da Justiça da Nova York decadente dos anos 1970. Aos 27 anos, o futuro presidente, por sua vez, buscava salvar o principal negócio da família — a Trump Village, no Queens, em vias de intervenção federal por segregacionismo. Inquilinos negros eram sistematicamente recusados de forma ilegal para assim se valorizar o metro quadrado do empreendimento. Com o uso do que batiza de “narrativa alternativa”, Cohn consegue acordo que não só evitou a falência dos Trump como alavancou o perfil de negociador de Donald.

A 24 dias das eleições, os americanos não encontrarão em “O aprendiz” novidades bombásticas sobre os anos formativos do primeiro ex-presidente americano condenado criminalmente e que, aos 78 anos, busca retornar à Casa Branca. Pesquisas mostram que os eleitores têm opinião cristalizada sobre o republicano, ao contrário de sua principal adversária, a vice-presidente Kamala Harris, do Partido Democrata. Também é difícil cravar se este retrato do populista de direita quando jovem mudará algum voto. Ao Wall Street Journal, Abbasi afirmou que “influenciar ou não as eleições não é problema meu”. Fato. Mas não surpreende a tentativa de Trump, até agora sem sucesso, de interromper a exibição do longa nos EUA.

Certo de que sua homoafetividade era fraqueza e inimigo da luta pelos direitos civis LGBTQIAP+, Cohn mantinha temido arquivo das intimidades dos poderosos do país, os quais chantageava em benefício de clientes e amigos, entre eles o próprio Trump. Foi retratado de forma brutal na peça “Anjos na América”, de Tony Kushner, adaptada para a TV na vitoriosa série de Mike Nichols, vivido por Al Pacino.

Ao pupilo, apresentou suas “três lições do americano vitorioso”. Número um: ataque, ataque, ataque. Dois: não admita nada, negue tudo. Três: sempre reivindique a vitória. Do veneno destilado em redes sociais e comícios, passando pelo uso do exagero de sua real fortuna e o negacionismo que desaguaria no ataque ao Capitólio em 2021, até o vitimismo persecutório na atual corrida eleitoral, qualquer semelhança não é mera coincidência.

Tony Schwartz, retratado no filme na ocasião em que Trump o contrata como ghostwriter para seu “A arte do negócio”, escreveu artigo elogioso a “O aprendiz” no New York Times. Nele, afirma que o longa cristalizou duas de suas percepções sobre o ex-presidente nos encontros para o livro: “A falta de consciência pode ser vantajosa para se acumular poder, atenção e riqueza numa sociedade em que a maioria dos demais se pauta por contrato social pré-definido. E sucesso público algum substitui aquilo que falta no interior da pessoa”. Touché.

No filme, Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel, encarna Trump menos obcecado em reproduzir seus maneirismos e mais em traduzir sua insegurança gestada ao sofrer bullying do pai, Fred, vaidade, falta de empatia pelo outro e o inegável — nem por isso menos vulgar — magnetismo. Já Jeremy Strong, o Kendall da série “Succession”, vive Cohn em atuação para o bonequinho do GLOBO aplaudir de pé. Construída a partir de entrevistas, reportagens e autos de processos, “O aprendiz” também triunfa com o roteiro de Gabriel Sherman.

O jornalista cobriu a primeira campanha presidencial do republicano para a New York, revista que depois editou. Escreveu badalada biografia de Roger Ailes, CEO da Fox acusado de assédio sexual, peça central na consolidação do trumpismo. O executivo, que morreu em 2017, dizia que “Donald repete sem parar o que Roy lhe ensinou”.

Hoje repórter especial da Vanity Fair, Sherman detalhou na revista a pendenga legal com Trump, que fez de tudo para impedir a distribuição do filme nos EUA. Seus advogados enviaram, horas depois da première no Festival de Cannes, em maio, carta de cessação e desistência aos produtores. Também avisaram a distribuidores interessados que pretendiam processar quem lançasse o filme no país. E, de acordo com Sherman, os perseguiriam com a máquina da Casa Branca em caso de vitória em novembro, especialmente por conta de uma das cenas mais controversas de “O aprendiz” — o estupro de Ivana Trump, vivida por Maria Bakalova, pelo marido, no triplex da Trump Tower.

A ex-modelo e mãe de Donald Jr., Ivanka e Eric Trump denunciou a violência nos autos do divórcio com o ex-presidente, em 1990. Voltou atrás publicamente anos depois, afirmando não querer dizer “atacada literalmente”.

Quando viu o corte final, um dos financiadores de “O aprendiz”, o bilionário Dan Snyder — que, informa a Variety, investira no que acreditava ser um tributo a Trump, a quem apoiara em 2016 e 2020 — pulou fora do barco. O filme só chega às telas porque seu quinhão foi comprado por outros investidores e a distribuidora responsável pelo lançamento dos filmes de Michael Moore nos EUA decidiu bancar a aposta. No Brasil, o título é da Diamond.

Recebido com loas pela crítica da zona norte do planeta — 80% de aprovação no agregador Rottentomatoes — “O aprendiz” inclui encenações de gosto duvidoso de embelezamentos cirúrgicos feitos por Trump, na barriga e no couro cabeludo. E retrata o que seria a dependência de anfetaminas do ex-presidente na virada dos anos 1990.

Também oferece o que mesmo um democrata de carteirinha pode apontar como pontos positivos da razão de ser do filme, entre eles o tino empresarial de quem anteviu o reerguer da capital informal do planeta, jogando suas fichas, como poucos, em Nova York.

Mas finca o dedo na ferida ao mostrar didaticamente a ingratidão de Trump, que abandona e humilha Cohn no trágico fim de sua vida. Mais safo que Fausto, o protagonista de “O aprendiz” não apenas vende sua alma ao diabo. Toma seu lugar.

Fonte: O Globo

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