Dentre os fatores intraescolares, nenhum supera a qualidade do professor como variável de maior impacto no desempenho dos alunos. Por isso é tão importante investir permanentemente em melhores políticas de atração, formação, seleção e retenção desses profissionais na carreira. Essa, não por acaso, é a principal característica em comum entre sistemas educacionais de alto desempenho pelo mundo. Até aqui, dificilmente haverá quem discorde dessas constatações. O grande desafio é como tornar isso realidade. E, por vezes, até políticas públicas bem-intencionadas geram efeitos adversos quando não consideram a complexidade de fatores envolvidos na melhoria da qualificação docente.
Foi o que aconteceu na Colômbia, como mostra um estudo publicado há duas semanas no prestigioso instituto de pesquisas NBER (sigla em inglês para Centro Nacional de Estudos Econômicos). Matias Busso (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e coautores avaliaram o impacto de uma nova política de seleção de professores, implementada em larga escala naquele país em 2005. Para selecionar melhor os docentes que dariam aulas em escolas públicas, foi criado um exame nacional para avaliar a aptidão e o conhecimento dos candidatos. A aposta era que uma seleção por mérito dos mais bem colocados no exame resultaria em melhoria da qualidade do ensino.
Aconteceu, no entanto, justamente o oposto. Estudantes expostos à nova política do governo registraram queda no desempenho em testes nacionais e diminuição da probabilidade de ingressar no ensino superior e obter um diploma universitário. A principal explicação dos autores para esse resultado foi a substituição de professores experientes por novatos com melhores notas no exame nacional. Após a reforma, o percentual de docentes com pouca ou nenhuma experiência no cargo saltou de 10% para 30%.
Em tese, não haveria nada de errado em aplicar uma prova para identificar candidatos mais qualificados para algum cargo. Essa é a lógica por trás de qualquer concurso público. A questão é que o desempenho em testes raramente é suficiente (e, por vezes, sequer é um bom preditor) para determinar se aquele profissional será ou não bem-sucedido na função. E, como argumentam os autores no estudo sobre a Colômbia, um aspecto que a literatura acadêmica aponta como relevante na docência é justamente a experiência profissional, pois professores com menos de cinco anos na carreira tendem a ter uma performance pior do que seus pares. O vigoroso aumento repentino de profissionais com pouca ou nenhuma experiência no magistério, portanto, foi um efeito colateral negativo da reforma, inviabilizando qualquer ganho (supondo que haveria algum) que o novo formato de seleções poderia trazer.
No artigo, os pesquisadores argumentam que as experiências mais bem-sucedidas de seleção de professores avaliam um conjunto mais amplo de informações, baseando-se também, por exemplo, em entrevistas ou observação de aulas. Mas vale lembrar aqui que outra característica comum aos sistemas educacionais de alto desempenho no mundo é justamente o apoio que é dado aos professores novatos nos primeiros anos, pois este é um período crucial — para alguns pesquisadores, o mais importante — na formação profissional.
Fonte: O Globo