“Saúde Mental do Seridó merece respeito”, desabafa médico psiquiatra do CAPS de Caicó

O Blog do Marcos Dantas visitou nesta manhã de terça-feira (17) as dependências do Centro de Atenção Psicossocial, mantido pela secretaria de Saúde de Caicó. Apesar do esforço e dedicação do quadro de funcionários, o local vem enfrentando uma série de dificuldades, que já começa a comprometer a atenção dada aos usuários da Rede de Saúde Mental da região do Seridó.

Durante nossa visita, encontramos várias camas sem as mínimas condições para os usuários, com ferrugens, madeira estragada, a maioria sem colchões, e as que tinham, com colchonetes estragados. Na visita, o Blog também teve acesso a algumas dependências usadas diariamente pelos mais de 50 usuários que são atendidos pelo Caps. O espaço onde eles se alimentam, além de ser quente e sem ventilação natural, estava fedendo muito, já que vizinho a ele funciona um espaço improvisado para a colocação de lixo.

Na cozinha, alguns funcionários relataram dificuldades enfrentadas diariamente, que vão desde a falta de alimentação necessária para os pacientes, principalmente frutas e verduras, até talheres, copos e eletrodomésticos, como os liquidificadores que estão sem funcionar a vários dias, trazendo prejuízo para o próprio CAPS.

Já perdemos alguns alimentos, que se estragaram porque não tivemos como usar o liquidificador. Sem contar as vezes que nós, funcionários tiramos do próprio bolso, mesmo recebendo atrasado, para comprar alguma alimentação que está faltando”, disse uma ouvida pelo Blog.

Em alguns quartos, o Blog do Marcos Dantas também se deparou com fiações elétricas expostas, o que acaba sendo um sério risco a vida dos pacientes, e outras fiações protegidas apenas com fitas adesivas. Na despensa, em uma delas não foi observada a falta de alimentos não perecíveis, porém nos dois freezers, o Blog testemunhou carne e frango suficiente apenas para uns dois dias, e quase nada de frutas e verduras. De acordo com informações colhidas no local, fornecedores de alimentos perecíveis teriam deixado de fornecer para o Caps, por causa de atraso no pagamento feito pelo Município.

Em entrevista ao Blog, o médico psiquiatra Dr. Fernando de Oliveira Cano, único profissional que ainda atende no Caps de Caicó, reconheceu que a Saúde Mental na região não vem recebendo a atenção que merecia. Ele citou como exemplo, que para atender cerca de 300 mil pessoas em toda a região, o Seridó conta apenas com 10 leitos de internação psiquiátrica, e destes, apenas seis estão disponíveis, por simples falta de colchões no Caps de Caicó.

Eu não sei mais o que fazer, às vezes tenho vontade de pegar minhas coisas e ir embora daqui. Estou cansado com esse descaso. Vamos reclamar para a secretaria de Saúde, vai reclamar com o Governo do Estado, com o Ministério da Saúde, mas as coisas não mudam e continuam deficitárias. Eu atendo pessoas aqui em situações gravíssimas, com risco de suicídio, com risco de homicídio, alta agressividade, a gente sabe dos números da região com suicídio, e ninguém faz nada. Não adianta fazer manifestação, usar camisa amarela, e não ter leito, não ter médico, não ter condições de trabalho, e profissionais habilitados para fazer um bom trabalho”, explicou.

Dr. Fernando também cita a falta de apoio em unidades de referência que poderiam servir de suporte para ajudzr na Saúde Mental, e cita o Hospital Regional de Currais Novos. “Estamos tentando colocar um psiquiatra lá dentro com leitos, o Governo não deixa, parece que impede que isso aconteça, burocraticamente, ideologicamente, eu sei lá. O que sei é que não se resolve e a gente vai pra trás, ao invés de resolver os problemas. Não se trata com responsabilidade a Saúde Mental no Seridó, nós estamos abandonados e largados”, finalizou.

Confira o desabafo do médico psiquiatra Dr. Fernando de Oliveira Cano ao Blog