Vivi para contar: ‘Me sentia num lugar que não era o meu’, lembra mulher que provou, 42 anos depois, que foi trocada ao nascer

Márcia, hoje com 48 anos: mulher lutou para conseguir solucionar troca na maternidade. Ela prefere não mostrar o rosto
Márcia, hoje com 48 anos: mulher lutou para conseguir solucionar troca na maternidade. Ela prefere não mostrar o rosto — Foto: Arquivo pessoal

“Quando eu era bem pequena, já notava que as pessoas me olhavam estranho quando visitavam a nossa casa. ‘Essa filha da Janete é diferente’, diziam. Hoje, sei que é por conta da fisionomia. Tenho a pele e os olhos bem mais claros que os da mãe e das outras quatro filhas. Mas na época, era muito complicado. Me lembro que até meu irmão mais velho, que hoje já se foi, brincava bastante comigo por conta disso, coisa de criança.

Até que, quando eu tinha uns 9 anos e voltava da escola, escutei minha mãe falando algo sobre mim. Me escondi perto da janela da cozinha e vi que ela conversava com a vizinha. Contava que eu, a filha mais nova, fui a única a nascer por cesariana, e o parto foi na maternidade Darcy Vargas, em Joinville (SC). Ela disse que, depois que deu à luz, segurou o bebê nos braços e que, em seguida, ele foi levado pela equipe médica, como era de praxe. Quando trouxeram o bebê de volta, ela disse que percebeu que a criança era diferente. Contou que fez um salseiro no hospital e repetia que aquela não era sua filha, que as pulseiras com os nomes haviam sido trocadas. Teve complicações por isso. Mas tanto insistiram que não havia a possibilidade de ter acontecido uma confusão que ela me levou para casa, como filha dela, quando recebeu alta, 12 dias depois.

Eu não contei para ninguém que tinha ouvido aquilo. Corri para um terreno baldio que havia perto da nossa casa, me sentei e comecei a chorar. Chorei muito. Fiquei com medo, não sabia o que pensar. Fiquei até doente, passei uns três ou quatro dias de cama, com febre. Guardei aquilo comigo por anos. Era muito nova e achava que meus pais poderiam me entregar para outras pessoas. Passei a ficar ainda mais retraída, me sentia ainda pior sempre que alguém dizia que eu era diferente. Acontecia sempre. Quando chegava uma visita, eu me escondia e não aparecia mais.

E foi assim até os meus 13 para 14 anos. Naquela época, meus pais estavam brigando muito, era um verdadeiro caos, e minha mãe acabou saindo de casa. Eu fiquei com meu pai e tomei coragem para finalmente perguntar se era verdade aquilo que eu tinha ouvido. Ele disse que era mentira, que a mãe havia inventado aquilo, e defendeu isso até o fim. Morreu dizendo que eu era filha dele e me tratando como tal.

Depois da morte dele, quando eu já tinha 28 anos, resolvi então perguntar à minha mãe. Aquilo mexia muito comigo. ‘Me conte a verdade’, eu insisti. Até que ela finalmente confessou para mim, com todas as letras: ‘acho que você não é minha filha’. Ela sempre foi uma boa mãe e foi um baque ouvir aquilo, mesmo que eu já tivesse essa suspeita. De repente, não sei explicar, eu me sentia num lugar que não era o meu.

Comecei a procurar em todos os lugares. Me diziam: ‘olha, tem alguém parecida com você em tal lugar’, e eu corria para ver quem era. Pensei em procurar TV, rádio, mas acabei não conseguindo. É uma coisa que mexe tanto com a gente… e eu, no fundo, não queria acreditar que aquilo era verdade.

Até que, em 2008, com a ajuda de um advogado, eu consegui fazer o teste de DNA com a mãe, e um ano depois, veio o resultado: de fato eu não era filha dela. Chorei muito, desabou o mundo para mim ali, porque até então eu ainda tinha alguma esperança de que a mãe tivesse se enganado.

Depois disso, acionei o advogado para tentarmos achar a minha família biológica. Pedimos para abrir os arquivos da maternidade, mas ele me disse que seria difícil, porque o local havia sido atingido por um incêndio depois que nasci. Depois de um ano tentando, conseguimos entrar lá, em 2015. Ele abriu os arquivos e descobriu que uma outra menina havia nascido no mesmo dia e horário que eu, com uma diferença de dez minutos.

Eu passei a vida em Joinville, mas havia me mudado há uns 6 meses para Francisco Beltrão (PR) — a cerca de 560km de distância — quando o advogado me ligou dizendo que havia encontrado essa pista sobre a minha família biológica. Ali já sabíamos: esse era o bebê trocado. Eu peguei um ônibus naquela mesma noite e fui no endereço cadastrado no arquivo. Eles não moravam mais lá, mas, para a minha surpresa, a irmã de uma das minhas cunhadas vivia na casa e me deu alguns contatos dos antigos moradores.

No dia seguinte, eu já liguei para uma mulher que seria nora da pessoa que foi trocada comigo na maternidade. Contei a história, mas ela não acreditou. Perguntei se ela poderia me mandar uma foto do marido dela, que seria meu irmão. Quando ela enviou, eu fiquei chocada. Meu filho era a cara dele e eu já não tive dúvida alguma de que havia encontrado. ‘Não preciso nem fazer DNA’, pensei. Mas ela já me adiantou que seria difícil que acreditassem nessa história. A minha mãe, a que me criou, passou por toda aquela situação, já desconfiava desde o início. Mas eles não. Eles acreditaram esse tempo todo que tudo estava no seu devido lugar.

Consegui, então, falar com algumas pessoas da família, e elas me disseram que meus pais biológicos já eram velhinhos. Por isso, seria difícil chegar lá do nada e dar essa notícia. Insisti e conversaram com eles, mas o que me disseram é que, num primeiro momento, também não acreditaram. Pedi, então, para intermediarem um encontro com a minha mãe biológica, e ela disse que era melhor não ter esse encontro comigo, porque não queria mexer com uma história dessa. Tudo ficou mais difícil ainda para mim. Nem sei o que eu pensei ou senti. Não gosto nem de lembrar.

Passados cerca de dois anos, consegui combinar de conhecer dois dos meus irmãos biológicos e as famílias deles, de volta em Joinville. Já fui pensando: ‘dessa vez eu consigo contar a história’. Antes de encontrá-los, fui bem cedinho até o portão da casa daquela que seria minha mãe biológica. Conversamos, expliquei para ela em detalhes toda a situação. Ela chorou bastante, mas disse o quanto era difícil era para ela acreditar. Voltei de novo chorando para casa. Mas quando cheguei de viagem, naquele mesmo dia, ela me ligou e disse que aceitava falar mais. Revelou que meu pai biológico tinha passado mal, que havia sofrido um AVC, e que se seu quisesse, poderia encontrá-los no hospital. Depois, soube que ele ficou muito mal de saúde quando soube da troca dos bebês.

Voltei imediatamente para lá. Fiquei com eles, conversamos bastante, e dois dias depois, o meu pai biológico faleceu. Infelizmente, com ele eu nem consegui ter um contato. Mas depois disso, consegui finalmente ter um momento com a minha mãe. É difícil, porque são laços difíceis de construir depois de tanto tempo. Ela já tinha criado a filha.

O velório do meu pai biológico foi um momento bem difícil para mim, porque quase ninguém sabia quem eu era e o que tinha acontecido. Até hoje, acho que quase ninguém sabe. E foi essa a situação: eu participei como se fosse uma conhecida, não a filha dele. Foi bem triste. Me senti um nada ali.

Depois disso, consegui me aproximar um pouco mais, de certa forma, e dois meses depois a minha mãe biológica finalmente topou fazer o teste de DNA. Isso foi no início de 2018. Em pouquíssimo tempo, o exame já confirmou que ela era a minha mãe mesmo. E foi um baque enorme para ela. Ela de fato não acreditava que aquilo podia ser verdade. Ficou triste, e acabou sendo um momento triste para mim também. Mas uma emoção inexplicável, que entendi depois. Para ela, a filha dela sempre foi aquela, nunca desconfiou de nada.

Chegamos a conversar, nós quatro, sobre tudo o que havia acontecido, mas foi só uma vez. A reação da minha ‘irmã’, a pessoa que foi trocada comigo na maternidade, foi positiva. Ela ficou contente por termos esclarecido tudo. A mãe que me criou quis conhecê-la e ficou muito emocionada. E, em comparação com as outras quatro filhas, acabou que ela é a que mais parece a mãe.

Processamos o município e ganhamos direito a indenização. Mas não há dinheiro que pague o dano que foi causado, o sofrimento, tudo o que passamos. Nem todo o dinheiro do mundo. Hoje, mantenho contato à distância com minha família biológica, porque moro longe. Mas sempre que consigo ir a Joinville, os vejo. A vida continua”.

*Em depoimento a Arthur Leal. Márcia pediu para que seu rosto e sobrenome fossem preservados.

Fonte: O Globo

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