Tragédia sanitária é iminente em Gaza por falta de combustível e água, afirma Unicef

Vista de um pátio do hospital al-Shifa, em Gaza
Vista de um pátio do hospital al-Shifa, em Gaza — Foto: Bashar Taleb / AFP

A Faixa de Gaza está à beira de uma verdadeira “tragédia” devido à falta de combustível e de água, alertou nesta terça-feira o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A paralisação das usinas de dessalinização — que produziam 21 milhões de litros de água potável por dia — devido à falta de combustível, somada à superlotação de hospitais e abrigos, mostrara-se um prato cheio para o agravamento da crise humanitária. Combinadas às chuvas que atingem a região, os palestinos enfrentam “uma séria ameaça de surto de doenças em massa” que, a agência observa, “será letal”.

— Se não houver combustível suficiente, nós vamos assistir ao colapso dos serviços de saneamento — disse o porta-voz do Unicef, James Elder, durante uma entrevista coletiva por videoconferência no Cairo.

Elder observou que a quantidade emergencial de água por pessoa durante um período de guerra ou fome é de 15 litros para beber, cozinhar e realizar higiene pessoal. Ainda assim, as cerca de 700 mil pessoas do norte de Gaza, onde está concentrada a maior parte da população, vivem diariamente com apenas três litros, chegando a ficar dias sem uma gota. A falta de combustível também afeta o uso de caminhões de lixo para o recolhimento de resíduos sólidos, aumentando a proliferação de insetos e roedores que podem transmitir doenças.

O cenário se agrava com a superlotação. No Hospital al-Shifa, palco de uma incursão do Exército de Israel na semana passada, estão por exemplo 2.300 pessoas, entre médicos, pacientes e deslocados. Já nos edifícios da Agência da ONU para refugiados palestinos (UNRWA), as filas para tomar banho chegam a demorar horas. Mesmo o simples ato de lavar as mãos ou fazer corretamente a higiene pessoal tornou-se laborioso: são ao menos 700 pessoas para um chuveiro, e um único banheiro compartilhado entre 150.

— Temos uma grave falta de água. As fezes cobrem áreas densamente habitadas. Há uma falta inaceitável de latrinas. — explicou o porta-voz.

Apesar do acordo para a entrada de ajuda humanitária na região pela passagem de Rafah, o único ponto de trânsito na fronteira controlado pelo Egito, Israel continuou proibindo a entrada de combustível na região, sob a alegação de que Hamas dispunha de 500 mil litros de diesel armazenados que poderia usar. Sem o produto, Gaza viveu uma paralisação de diversos serviços, como hospitais, ambulâncias, as próprias usinas de dessalinização, e até mesmo padarias.

Na sexta-feira, autoridades israelenses confirmaram a entrada de um suprimento inicial de 17 mil litros de combustível, destinados ao restabelecimento dos serviços de telecomunicações. No mesmo dia, o Gabinete de guerra israelense autorizou o envio diário para Gaza de 70 mil litros de combustível, o que equivale a dois caminhões-tanque, sob a condição de que não chegassem ao Hamas. O valor, contudo, ainda está aquém do necessário. Antes da guerra, a quantidade entregue se aproximava de 7 milhões de litros por semana.

O porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), Christian Lindmeier, disse que até o momento não há vestígios de cólera na Faixa de Gaza, onde a bactéria que provoca a doença não estava presente antes da guerra. Ao mesmo tempo, ele destacou que a diarreia aquosa que afeta milhares de pessoas já debilitadas fisicamente é igualmente perigosa. Os números da doença, segundo o porta-voz da Unicef, são “quase 10 vezes a média mensal de casos notificados” em crianças menores de 5 anos, que também sofrem com “sarna, piolhos, catapora, erupções cutâneas e infecções respiratórias”.

Segundo a ONU, desde meados de outubro de 2023 até o início de novembro, foram notificados mais de 33.551 casos de diarreia, com mais da metade ocorrendo em crianças menores de 5 anos, 8.944 casos de sarna e piolho, 1.005 casos de varicela, 12.635 de erupção cutânea e quase 55 mil casos de infecções respiratórias.

— Se o acesso das crianças à água e ao saneamento em Gaza continuar limitado e insuficiente, nós veremos um aumento trágico do número de mortes infantis — disse Elder, alertando: — As crianças enfrentam um grave risco de epidemia em larga escala.

Gaza já contabiliza 14.128 mortos desde o início da guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas, no dia 7 de outubro. Desse total, 5.840 são menores de idade e 3.920 são mulheres, informaram nesta terça-feira autoridade do grupo terrorista, que controla o enclave palestino desde 2007. Há ainda 33 mil feridos por conta dos intensos bombardeios. Em Israel, 1.200 pessoas foram mortas no ataque terrorista, enquanto 240 pessoas foram sequestradas, segundo as autoridades.

Alertas similares foram divulgados nas últimas semanas. Na sexta-feira, o Programa Mundial de Alimentos (PAM) da ONU denunciou que toda a população da Faixa de Gaza, ao menos 2,2 milhões de pessoas, corria risco iminente de morrer por inanição — também devido à falta de combustível, e consequentemente de água, e à baixa quantidade de ajuda humanitária que entra no enclave.

Dias antes, a UNRWA anunciou a paralisação das suas atividades por falta de combustível, no mesmo dia que experimentava o luto pela perda de mais de 100 funcionários. No fim de outubro, a agência já havia alertado que, pela primeira vez em mais de 70 anos, seria obrigada a interromper o seu trabalho no enclave. Altamente dependente da ajuda de organizações internacionais, a suspensão dessas atividades significa um agravamento sem precedentes na situação humanitária de Gaza.

Há mais de um mês, a ONU já alertava para o risco dos palestinos ficarem sem água. Como alternativa, muitos recorriam a água suja de poços, aumentando o risco de doenças.

Fonte: O Globo

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