Saúde: Posturas que adoecem

As dores que atingem a parte inferior das costas possuem diversas causas, e muitas delas podem estar relacionadas à profissão que o indivíduo exerce. Atividades que exigem movimentações manuais constantes ou horas numa mesma posição costumam deixar problemas. Segundo o Ministério do Trabalho, os problemas de coluna foram responsáveis por 55 mil pedidos de licença para trabalhadores entre janeiro e julho de 2021, só perdendo para os afastamentos causados pela covid-19. É preciso entender os riscos de uma rotina com posturas prejudiciais à saúde.

Determinadas profissões, em especial, já são conhecidas como as mais suscetíveis a causar problemas posturais. Entre elas estão as de motorista, dentista, trabalhadores de escritório, trabalhadores da construção civil, mecânicos, trabalhadores de depósitos/transportadoras, e também quem trabalha em funções domésticas. São ocupações que exigem posturas repetitivas e/ou esforço físico intenso.

A lombalgia, popularmente conhecida como dor lombar, dor nas costas ou dor na coluna, é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o principal problema de saúde funcional nos países ocidentais industrializados. Segundo a fisioterapeuta Tanise Câmara, estima-se que 15% a 20% dos adultos têm dores nas costas durante um único ano, e 50% a 80% já experimentaram pelo menos um episódio de dor nas costas durante toda a vida.

No Brasil, a lombalgia atinge 13% da população, segundo o PNAD (Programa Nacional de Amostra por Domicílios). A dor na lombar é a segunda condição de saúde mais recorrente no país, ficando atrás apenas de hipertensão arterial. Tanise ressalta que a doença não diferencia idade e atinge desde adolescentes a idosos, sendo uma das principais causas da deficiência na população ativa adulta, e uma das principais causas de faltas ao trabalho, elevando o índice de absenteísmos.

A má postura é capaz de quebrar o equilíbrio que permite às articulações e músculos das costas suportarem o peso do corpo. “A postura errada pode causar um desgaste não natural entre as articulações, potencialmente preparando o cenário a longo prazo para condições como a artrose. No início, a sobrecarga pode causar dores musculares, levando a um desgaste prematuro, causando hérnias de disco, artroses, discopatia e outros problemas”, explica a fisioterapeuta.

Sentir dor na coluna não é normal. A dor, quando surge, é sinal de que algo não está bem. “Quando a dor na coluna dura mais que 12 semanas, é  caracterizada como lombalgia crônica e, por ter causa multifatorial, é bem mais  difícil de ser tratada, requerendo a procura de um tratamento especializado”, alerta a fisioterapeuta.  Independente da duração da dor, ao  surgimento dos sintomas deve-se procurar um especialista para avaliar a  gravidade do problema e iniciar o tratamento.

A fisioterapeuta afirma que é necessário realizar determinadas mudanças na vida  profissional quando um problema de coluna surge. “Podemos nos movimentar mais, mudar a postura nas mesas de trabalho, fazendo intervalos regulares, de preferência com cinco minutos a cada hora trabalhada, e também melhorarmos a  configuração do ambiente de trabalho”, explica.

Para além do trabalho corporativo, o trabalho doméstico também exige seus cuidados em relação às dores nas costas. “Na realização de atividades domésticas, evite trabalhar com o tronco totalmente inclinado se estiver em pé; no ato de passar roupa ou lavar louça, a mesa ou pia deve ter uma altura suficiente para que a pessoa não se incline, outra dica é utilizar um apoio para os pés alternando-os sempre que houver algum incômodo”, diz.

Tanise Câmara destaca o quanto é importante o paciente ser submetido a uma avaliação detalhada com o objetivo de identificar a estrutura que está comprometida, e tratá-la de maneira correta. “Com uma avaliação detalhada, conseguimos chegar a um  diagnóstico cinesiofuncional  preciso do    problema, evitando cirurgias da coluna em mais de 95% dos casos”, ressalta ela, que costuma priorizar a terapia manual. A fisioterapeuta também atua na Doutor  Hérnia, que oferece tratamento especializado para hérnia de  disco, dores no  nervo  ciático e patologias da  coluna   vertebral.

Posturas corretas

O motorista Fábio Morais Silva estava perto dos 40 anos, em 2018, quando sentiu uma dor forte nas costas. A ressonância apontou um desgaste no disco vertebral. Ele tomou uma medição que aliviou o problema. Anos depois a dor se intensificou e ele foi diagnosticado com uma hérnia de disco na quinta vértebra da lombar. “A dor era tão forte que adormeceu meu corpo inteiro, fiquei impossibilitado de dirigir”, diz. Fábio conta que durante muitos anos dirigiu carreta e carregou pedras em um negócio com o pai, o que acarretou sua doença.Ele já estava com a cirurgia de coluna praticamente marcada, quando a filha descobriu uma proposta de tratamento fisioterapêutico que prometia um procedimento menos intrusivo. E deu resultado. “Foram três meses de fisioterapia, e estou me sentindo bem melhor. Estou retomando minha vida normal, dirigindo meu carro pequeno e sem pegar peso, é claro”, diz. Fábio mudou hábitos, e agora faz pilates, caminhada, e tem consciência que precisará fazer exercícios físicos para sempre. E está tudo bem.

Luzia de Souza, técnica de enfermagem há mais de 20 anos, conta que nunca teve muito cuidado com seus movimentos no trabalho, enquanto conduzia pacientes ou  ficava durante cinco horas em instrumentações cirúrgicas. Até que ela teve um torcicolo que a fez entrar quatro vezes na urgência. Foi diagnosticada com uma hérnia cervical. Ela conta que sentia uma dor no pescoço que irradiava para o braço esquerdo e deixava seus dedos dormentes. “Eu não conseguia segurar um copo, a dor no braço era enorme”, diz.

Luzia também tomou uma série de medicamentos que não passavam a dor, e também chegou a marcar uma cirurgia. Mas conseguiu resolver o problema à base de fisioterapia. O tratamento foi intenso, e agora ela já se sente bem melhor, praticamente retornando à vida normal. “A gente continua a se cuidar em casa, mas muda tudo, como você senta, levanta, se movimenta”, diz. Ela ressalta que nunca foi sedentária, ia pra academia todo dia. Agora faz pilates duas vezes por semana e aos poucos está voltando à musculação. “Estou mais cautelosa, principalmente no trabalho. Vejo como me posiciono em tudo”, conclui.

 

Do Tribuna do Norte