‘Queremos ainda este ano definir obras estruturantes para que essas cenas não se repitam mais’, diz Rui Costa

Em entrevista a Globonews, o ministro Rui Costa diz que se reunirá com especialistas na próxima semana para discutir obras estruturantes que possam mitigar risco de novas tragédias no Rio Grande do Sul
Em entrevista a Globonews, o ministro Rui Costa diz que se reunirá com especialistas na próxima semana para discutir obras estruturantes que possam mitigar risco de novas tragédias no Rio Grande do Sul — Foto: Reprodução

O ministro da Casa Civil, Rui Costa, adotou a diplomacia baiana e contornou a pergunta sobre a acusação de que ele estava em regozijo pela saída de Jean Paul Prates, elogiando o ex-presidente da Petrobras a quem se referiu como “Jean”. Ele disse ainda que não é possível pensar em fazer política quando se olha a situação nos abrigos gaúchos, rechaçando quem considera a nomeação de Paulo Pimenta para o ministério extraordinário para reconstrução do Rio Grande do Sul inadequada, diante de suas pretensões políticas. Economista de formação, o ministro foi, no entanto, muito pragmático ao falar das medidas de auxílio ao Rio Grande do Sul e sobre a necessidade de simplificar a burocracia para liberação de recursos sem perder transparência e capacidade de fiscalização. Costa comparou o orçamento para e reconstrução do estado a um orçamento de guerra, o que justifica a exclusão da meta discal, explica.

Rui Costa disse também a ideia começar, ainda este ano, obras estruturantes que possam mitigar os riscos de novas tragédias se repitam no estado gaúcho. Para tanto, embarca na próxima semana para a sua quarta viagem ao Rio Grande do Sul, desde o início das enchentes, para se reunir com especialistas para conhecer estudos discutir as estratégias. Tudo isso ele me contou no meu programa ao vivo, na Globonews, às 23h30m desta quarta-feira, depois de um bate e volta ao Rio Grande do Sul onde apresentou, ao lado do presidente Lula e outros ministros, programas de auxílio às famílias gaúchas.

Confira abaixo a íntegra da entrevista.

Houve críticas pelo fato de o ministro Paulo Pimenta ser gaúcho, ser político, ter ambições políticas e ter sido escolhido como ministro extraordinário para reconstrução do Rio Grande do Sul. Como é que isso responde a essa crítica?

Ministro Rui Costa: O Brasil, infelizmente, tem uma história recente de muitas tragédias, algumas com total de mortos muito maior. Mas são tragédias, às vezes, muito localizadas, que pegam um vale, pegam uma região alta. Nesse caso do Rio Grande do Sul, a área é muito extensa. São várias regiões que sofreram e estão sofrendo um grande desastre e, portanto, requer, não só no momento do resgate, de salvar vidas, mas nesse exato momento nós estamos ainda no ambiente onde os efeitos se sentem pela presença ainda da água e outros que a água já passou e que precisa reiniciar a reconstrução e a vida das pessoas.

E nós precisamos nesse momento de uma articulação muito refinada, de mobilização para que as coisas aconteçam como a população precisa, de uma forma muito célebre.

Então qual é o papel do Pimenta?

Ele vai funcionar como alguém que vai dinamizar, vai articular. Ele não vai ser executor de nenhuma obra ou de nenhuma ação concreta, porque essa ação de uma escola, de uma unidade de saúde, será feita pelos ministérios. Mas é preciso articular isso, articular a sociedade organizada, articular os prefeitos, os empresários, enfim, mobilizar as forças da sociedade, fazer essa “consertação” para alinhar e dar celeridade a essas ações do governo federal. E tinha que ser alguém do Rio Grande do Sul que conhecesse o Estado, conhecesse as pessoas para fazer esse processo de articulação.

O presidente quis dar uma demonstração muito clara ao criar o ministério extraordinário, da prioridade e da preocupação dele com o Rio Grande do Sul. Então, e a pessoa mais próxima ao presidente e que conhece muito o Rio Grande do Sul é o Pimenta. Eu acho que foi a melhor pessoa.

E essa crítica, o senhor acha que é uma crítica infundada? Ele não vai fazer campanha política?

Rui Costa: Quando se anda como nós andamos ali no abrigo, começa a ouvir as pessoas, a história de sofrimento das pessoas, da dor. As pessoas de bom senso, as pessoas que gostam de cuidar de gente, a última coisa que vem na sua cabeça ali é pensar em política. O que você vê ali é a sensação de ajudar aquela pessoa, de ajudar a retomar a vida dela, de minimizar aquele sofrimento, Então eu não tenho dúvida que o Pimenta cumprirá esse papel. O papel de ser o articulador junto aos municípios, junto ao governo do estado. E essa é uma tarefa que ele com certeza fará. E como tudo na vida que a gente faz, nos amadurece.

Ninguém tá pronto. Mesmo quando a gente tá com 60 anos, quando a gente vai fazendo as coisas, nós vamos amadurecendo, vamos aprendendo. E com certeza é um desafio novo, ele nunca participou de um momento desses e isso, com certeza, vai amadurecer muito ele, como nos amadurece a cada dia que a gente tem um desafio novo pela frente.

O senhor hoje anunciou várias medidas concretas para ajudar famílias, como o auxílio reconstrução dos R$ 5 mil, antecipação de abono, antecipação de Bolsa Família e de pagamento do imposto de renda, a devolução do imposto de renda. Enfim, foram muitas medidas muito concretas, mas eu fiquei com a impressão que virão outras, que vocês estão construindo um fluxo de medidas para segmentos diferentes da sociedade, para momentos diferentes, para áreas diferentes. Eu queria que você falasse sobre isso.

Rui Costa: Exatamente. A gestão de uma tragédia dessa, no primeiro momento você tem que cuidar de salvar as pessoas, salvar vidas humanas, salvar vidas animais, no momento do resgate, da solidariedade, das providências mais urgentes. Isso foi feito, eu diria, como tinha um alerta, as Forças Armadas chegaram com os primeiros helicópteros, o ministro (da Defesa) José Múcio estava um dia antes de começar o maior volume de chuvas, já estava com alguns equipamentos.

Depois, passado aquele momento, nós precisamos sinalizar, dar um horizonte de esperança para as pessoas. Por isso, na semana passada, nós anunciamos as medidas de crédito. Crédito por pequeno, por micro, aquele que precisa de mil reais, R$ 2 mil, R$ 3 mil para voltar a tocar o seu negócio até quem precise de muito dinheiro. Então, nós botamos um fundo garantidor da ordem de R$ 7 bilhões.

O que é fundo garantidor? É o governo assegurar com recurso da União aos diversos agentes financeiros para que eles possam emprestar um juro mais barato que o risco está garantido. E, com isso, esses R$ 7 bilhões pode alavancar até R$ 50 bilhões com taxas de juros diferenciadas. Quanto menor a atividade econômica, menor a taxa de juros. E para grupos maiores, mais fortes, as taxas de juros são um pouco maiores. Então, tem um degradê aí de tonalidades de juros. Essa foi a primeira medida.

A segunda medida foi devolver ao estado do Rio Grande do Sul a sua capacidade de investimento. Pelas dificuldades fiscais históricas, o Rio Grande do Sul ocupou, nos últimos anos, nas últimas décadas, ele sempre esteve entre os 27 estados como um dos estados que menos investe no Brasil, dada a sua situação fiscal, financeira. E o que o presidente fez foi devolver ao estado do Rio Grande sua capacidade de investimento. Suspendendo o pagamento da dívida durante três anos e zerando o juros da dívida, não só nesse período, mas do montante inteiro.

Então, com essa ação, o governo do presidente Lula liberou para o governo do estado investir R$ 11 bilhões.

E hoje, a terceira, vou dizer assim, o acolhimento, o anúncio de financiamento, devolver ao estado a capacidade de investir e hoje (quarta-feira) anúncios para socorrer as pessoas.

Mas também o governo tem em mente obras estruturais para tentar evitar que Porto Alegre não fique alagada em outros momentos?

Rui Costa: Porto Alegre , a Região Metropolitana e outras regiões. Confesso que desde a semana passada eu tenho pessoalmente me debruçado para levantar todo estudo que tem, que já foi apresentado no governo federal no passado, que não foi apresentado. Tem estudos que foram feitos até por organizações de outros países, como a Alemanha, que através de instituições fizeram estudos dessas bacias. Hoje mesmo nós nos debruçamos sobre isso.

O presidente Lula determinou ações no sentido de consertar as estruturas que foram feitas de diques de proteção, de bombas. Nós vamos dar todo o apoio, suporte técnico, financeiro, material aos prefeitos e ao estado para recuperar o que existe.

Mas o que existe se mostrou também insuficiente. Então, nós já estamos contratando uma grande estrutura que vai se juntar aos estudos já realizados, convidar as autoridades das universidades, quem entende do assunto, e eu volto para o Rio Grande do Sul semana que vem, junto com o Pimenta, que nós queremos já engajar institutos de universidades que têm muito acúmulo disso, e junto com essa contratação queremos ainda este ano definir obras estruturantes capazes de conter um desastre dessa dimensão, para que essas cenas não se repitam mais e as pessoas no Rio Grande do Sul possam ter a tranquilidade de criar seus filhos, montar seu negócio, construir suas vidas sem esse sobressalto. É inadmissível tanta vulnerabilidade por um número tão grande de pessoas como nós estamos vivenciando no Rio Grande do Sul.

Eu quero trocar de assunto, mas vou voltar depois para o Rio Grande do Sul, que vai ser o grande assunto desse programa. Mas é que não pode deixar de perguntar sobre a queda do Jean Paul Prates. E é porque ele deixou uma carta em que ele fala assim, minha missão foi precocemente abreviada pela presença regozijada de Alexandre Silveira e Rui Costa. O senhor ficou assim tão alegre?

Rui Costa: Eu quero primeiro cumprimentar, saudar o Jean. Ele conseguiu lucros muito robustos na frente da sua gestão da Petrobras. Nunca é demais repetir, a Petrobras no ano passado conseguiu o maior lucro da sua história. Desde que a Petrobras existe, foi um dos maiores dividendos pagos aos acionistas. A empresa reverteu aquela curva que a empresa estava caminhando para seu fim. Uma empresa de petróleo é um conceito universal.

Tem empresas de capital intensivo, que petroquímicas, petróleo e outros ramos da indústria, da tecnologia, são empresas que só sobrevivem se investirem muito, investirem muito em pesquisa, investirem muito em atualização tecnológica e, no caso de petróleo, buscarem reserva, buscarem outros ramos, diversificar sua atividade.

Mas se ele estava indo bem, por que ele caiu?

Rui Costa: Olha, eu diria que são desafios e que quem indicou o Jean Paul, que é o presidente da República, entendeu que era hora de acelerar em alguns aspectos, como a área dos investimentos da Petrobras, que nós entendemos que é possível acelerar.

Por isso ele escolheu alguém (Magda Chambriard) que conhece muito a empresa, tem mais de 40 anos dentro da empresa. Uma pessoa concursada, viveu a vida inteira dentro da Petrobras, começou embaixo, como técnica, e agora virou presidente da empresa, foi da ANP, então conhece a empresa por dentro, conhece o mundo do petróleo por fora, conhece as relações globais sobre o petróleo, já que ela teve que regular o modelo aqui no Brasil. Então é uma pessoa absolutamente preparada, técnica, que nunca disputou eleição, nunca fez militância política, partidária stricto sensu.

Então é uma pessoa que, não tenho dúvida, vai continuar uma gestão profissional da empresa, garantindo lucros aos acionistas e garantindo, portanto, o investimento da empresa para que seja cada vez mais uma empresa robusta, que dê dividendos e que garanta superação de desafios que as novas empresas de petróleo se propõem nesse mundo de transformação energética.

Mas o fato é que a empresa hoje perdeu R$ 35 bilhões de valor de mercado. Valor de mercado se recupera, não tem nenhum problema, mas isso significa uma desconfiança em relação a essa mudança. Se essa mudança é para haver mais intervenção do Palácio do Planalto na gestão de uma empresa, uma empresa de capital aberto, a maior do país, com capital no mundo inteiro, pulverizada, uma empresa que não pode ser gerida do ponto de vista apenas do acionista controlador. É isso que o mercado quer dizer.

Rui Costa: Eu sempre fico preocupado, como eu assisto muito os programas da GloboNews, eu fico muito preocupado, quem está sentado no sofá, está deitado na cama nos assistindo nesse horário, como é que ele ouve as notícias. Perdeu R$ 35 bilhões.

Por isso que eu falei recupera-se.

Rui Costa: Na verdade, você perde se você vende suas ações. Ou num dia que a empresa subiu muito o preço da ação, se você vender, você ganha. Mas se subiu muito naquele dia e você não vendeu, você não ganhou nada. E no outro dia baixou, você não ganhou nada. O ganhar ou perder é se você realiza as suas ações. Porque senão, às vezes, pessoa que não tem a noção da economia acha que saiu do caixa da empresa hoje R$ 35 bilhões. Isso não necessariamente é assim. Toda empresa que tem ações da Bolsa, ela tem uma oscilação, oscilações diárias e, às vezes, oscilações de mais longo prazo.

Mas eu diria que o presidente Lula, o que ele quer, o que nós queremos, é a manutenção de uma gestão profissional, uma gestão transparente. O presidente tem se pautado, por repetir diversas vezes e sinalizar para o mundo, não é à toa que o Brasil hoje ocupou o ano passado, e de novo repete este ano, como o segundo lugar do mundo de destino de investimento estrangeiro. Por quê? O presidente tem dito, olha, nós queremos segurança jurídica, queremos previsibilidade, e aqui, nem na política econômica, nem na gestão de empresas, na ação dos ministérios, nós teremos cavalo de pau, teremos mudanças repentinas. Os contratos serão respeitados. E isso sinaliza ao investidor que tenha tranquilidade, que a lei é respeitada no Brasil, que as coisas não vão mudar de forma extemporânea, e é por isso que os investimentos crescem.

Você está falando de investimento da Petrobras, você está falando de investimentos na empresa ou investimentos para fomentar outros negócios como a indústria de navios ou gasodutos ou outras áreas, ligadas ao negócio ou não?

Rui Costa: O que o mundo inteiro hoje faz, sempre fez e hoje mais ainda os países têm muita preocupação em fazer. Hoje eu vi uma declaração do governo americano, que inclusive sobretaxou carros chineses em 100%, falando que a China está inundando o mundo com produtos baratos. Às vezes é surpreendente ouvir isso, porque a gente sempre ouviu das nações como Estados Unidos ou outras nações ricas, que os outros países tinham que abrir seu mercado para elas colocarem os seus produtos. E aqui a gente sempre dizia, olha, tem que proteger a indústria nacional.

Então hoje a gente vê Alemanha, Estados Unidos e outros países fazendo o discurso que nós fazíamos no passado, de proteção da sua indústria.

O que o mundo inteiro está fazendo? Está procurando aumentar a integração interna das suas produções, das suas cadeias produtivas, para, primeiro, elas ficarem mais competitivas, gerarem emprego, que o mundo ficou globalizado e há uma disputa pelo emprego no mundo inteiro.

Onde é que essas coisas se produzem? E cada vez mais países propõem ter emprego de qualidade, com a remuneração maior, com a agregação maior de valor, de tecnologia.

Então uma empresa do tamanho da Petrobras é importante que, sem comprometer seu resultado, seu lucro, pagamento de dividendos, ela possa não só construir o seu presente, mas construir o seu futuro. E ela ter essa capilaridade para o país. Então as coisas podem ser feitas conjugadas.

Não é sinônimo de que uma empresa que se orienta para estimular, para sinalizar, antecipar para que produtoras nacionais tenham competência, tenham preço de produzir aqui, o que eventualmente faz em outro país. Você não pode sacrificar empresa com custos elevados só porque tem que comprar aqui. Mas pode ter uma política de desenvolvimento tecnológico, industrial, que consiga elevar a nossa capacidade de produção a custos competitivos internacionais.

Ministro, todo esse gasto extra que vai ter orçamentário e acudir ao Rio Grande do Sul, como é que isso vai impactar as contas públicas? Vai ficar fora da contabilidade oficial, mas de alguma forma isso vai afetar a meta fiscal?

Rui Costa: Ele estará dentro da contabilidade oficial, só que os seus efeitos não serão contabilizados por efeito de meta fiscal nem de primário e nem poderia, porque você faz uma programação do país, igual um país como o Japão ou outro país, você faz um orçamento, tem um terremoto, isso não tem como você prever um ano antes um terremoto, não tem como você prever um ano antes um desastre desse tamanho e, portanto, a nação, o país precisa cuidar daquele estado daquelas pessoas.

Então, é como se fosse um orçamento de guerra específico, que é contabilizado, fiscalizado, monitorado, tem seus limites, mas ele não pode impactar uma regra fiscal que sinaliza um horizonte de tempo de gestão pública, de metas a serem alcançadas.

É importante essa segregação para que as duas coisas sejam possíveis, ou seja, que o mercado, os investidores que analisam o país continuem enxergando que as contas estão em ordem, que o governo é um governo responsável, mas do outro lado também você não deixe de atender as pessoas. Então se garante que as duas coisas possam acontecer em paralelo. É isso que foi feito.

Falamos anteriormente da questão da dívida do Rio Grande do Sul, que a União vai suspender o pagamento das parcelas e zerar os juros desse período, é uma grande concessão. Mas o governador do Rio Grande do Sul não está satisfeito ainda, porque ele quer uma medida mais radical. Mas, além disso, hoje, no discurso, Eduardo Leite falou da perda de arrecadação que o Estado terá por causa dessa crise, porque a atividade econômica está paralisada, então vai ter uma perda de arrecadação. E aí ele comparou com a pandemia, que teve uma compensação, e ele pediu isso. Isso será considerado?

Rui Costa: Olha, deixa eu dizer, é evidente que o presidente até hoje disse isso, sempre que precisa, por mais que você coloque, acha que ainda precisa mais. E quem está fazendo ou transferindo recurso vai ter na dimensão do montante que já transferiu.

O que eu quero ressaltar é que não há paralelo, eu não conheço na história do Brasil ,em que um presidente da República coloque na mão de um estado, de um governador, num ato seu, R$ 11 bilhões de reais para ele fazer investimento. Isso mostra a dimensão do problema, a sensibilidade…

Mas R$ 11 bilhões ele iria arrecadar, mas se ele não arrecadar… Ele pagaria a dívida, ele vai deixar de pagar, portanto, R$ 11 bilhões seriam assim.

Rui Costa: O que é que o estado do Rio Grande do Sul é um estado que tem uma força econômica grande. Eu digo isso porque eu fui governador da Bahia. A Bahia tem uma arrecadação muito menor do que o Rio Grande do Sul, embora em todos os últimos anos tenha tido um investimento tanto nominal, como proporcional, imensamente maior que o Rio Grande do Sul.

Então, o Rio Grande do Sul, o seu problema maior não está na arrecadação, está na sua complicação fiscal e de gestão de muitos e muitos anos, não estou falando desse governo, como estruturas de custeio extremamente elevados, aí é um outro debate que não está se colocando aqui.

Mas eu diria que nós temos que ir colocando as demandas na ordem de prioridade. Além dessas que eu falei, de corrigir a infraestrutura, para tirar a água, nós precisamos tirar aquela água de outras cidades que pode tirar água. Então precisa consertar bomba, consertar dique, isso de imediato.

Precisa fazer obra estruturante imediatamente para que há dois anos, daqui a dois anos, três anos, nós não estejamos lamentando mais mortes e mais desastres. Então precisa de obras estruturantes que vão ser muito caras, vão demorar muito recursos.

Isso será feito pelos ministérios?

Rui Costa: Essas obras, faremos algumas delas com o município, por exemplo. O presidente Lula garantiu hoje que todas as escolas que foram perdidas, todas as creches que foram perdidas, todos os postos de saúde, todas as UPAs, que são unidades de pronto-atendimento, os hospitais, tudo que foi perdido, o governo federal está garantindo que será reconstruído.

Quem perdeu a sua casa, todos que têm o perfil de demanda do Minha Casa Minha Vida 1 e do Minha Casa Minha Vida 2, terão a sua casa de volta. E nós vamos usar vários formatos para isso.

Aquele que tem o perfil de renda maior com casas de outro padrão, terão financiamento subsidiado para reconstruir sua casa. Então, no caso da habitação, a gente está estimando em mais de R$ 7 bilhões só para habitação.

Hoje o programa lançado que transfere R$ 5.100 para as famílias comprarem, ele pode comprar o que ele quiser, mas o que nós imaginamos foi que ele vai precisar repor a geladeira dele, o fogão, a cama, o colchão, ou seja, alguns itens básicos que ele precisa para voltar para casa dele, aqueles que vão poder voltar para casa.

E no caso de quem perdeu a casa, nós vamos percorrer, utilizar algumas linhas.

A primeira é fazer uma compra assistida e nós já dissemos aos prefeitos hoje que já podem comunicar às pessoas que estão em abrigo ou estão na casa de parentes que eles já podem procurar uma casa para comprar na sua cidade. Dentro desse perfil nós vamos editar a portaria ainda essa semana para regular tetos e a Caixa vai avaliar se aquele imóvel está dentro daquele perfil. A Caixa compra a casa e entrega aquela pessoa dentro desse perfil que eu me falei, Minha casa, minha vida 1 e 2, pode ser casa, pode ser apartamento.

Outra linha é pegar apartamentos que a Caixa ou o Banco do Brasil estavam colocando a leilão, nós já identificamos de imediato 600 unidades, nós já dissemos que tiramos do leilão e vamos entregar às pessoas que precisam de moradia.

Nós estamos comprando no mercado, empresários que começaram a construção dessas casas para vender no mercado. Nós identificamos 14 mil unidades nas cidades que foram atingidas em produção, ou seja, com 90%, com 100%, com 10% de construção. Todas elas nós vamos comprar essas casas, dentro do teto da demanda de cada cidade.

Já temos 600 prontas, portanto, 600 do que iria a leilão, com 600 que já estão prontas no mercado, nós já temos de imediato 1.200 casas para assentar as famílias e essas casas, nesse perfil, serão concluídas ao longo dos próximos dois anos.

Além disso, tem a opção de retrofitar prédios. Então, tem um prédio lá que está abandonado na cidade, tem um antigo hospital que não vai voltar mais ser hospital, então aquele prédio pode sofrer uma reforma e virar um prédio de moradia. Até um prédio escritório, que não serve mais para escritório, está lá fechado, então ele pode ser reformado para se transformar em moradia.

Então nós vamos utilizar todas as opções possíveis para responder num prazo mais curto a demanda de cada cidade. E algumas nós vamos responder de imediato.

Por exemplo, Santa Maria, que é até a cidade do ministro Pimenta, lá foram 44 casas perdidas. Muito provavelmente com a primeira opção, que é a compra assistida, nós vamos resolver de imediato. É fácil localizar 44 casas a venda em Santa Maria. Em outras cidades, você vai precisar, talvez, 5 mil unidades, vai ser mais difícil você achar todas elas para vender.

Aí vai precisar, essas pessoas ficarem em aluguel social um período, um ano, um ano e meio, dois anos, até a casa dela ficar concluída.

O senhor já foi lá duas vezes, foi hoje novamente, e vai semana que vem. Só que são viagens diferentes. Hoje o senhor foi a abrigos, conversou com as pessoas, o que o senhor sentiu ao chegar lá?

Rui Costa: Eu vivi isso na pele sendo governador da Bahia em 2021. Um desastre de grandes proporções em duas regiões, no sul e extremo sul, no Vale de Jaguaquara, ali, nós tivemos um desastre de grandes proporções.

Sem apoio do Governo Federal?

Rui Costa: Zero. Sabe quanto eu recebi do governo federal? Zero. Sabe quantas casas o governo federal ofereceu aos prefeitos?

Zero. Qual foi o valor de ajuda às famílias? Zero. Primeiro, o presidente, nos primeiros dias, estava em Santa Catarina, passeando de jet ski, e disse que não ia interromper por causa da chuva na Bahia. Depois a pressão foi tão grande que ele resolveu ir um dia lá. E ele foi fazer uma motocicleta lá e depois foi embora e não ajudou em absolutamente nada.

Hoje eu tive uma oportunidade de acompanhar o presidente e conversei com algumas pessoas, me lembro da conversa com a dona Clarice e o esposo dela, o senhor Beto, que ela relatava que nas outras enchentes ela e o marido dela iam socorrer as outras pessoas e hoje ela estava ali. Ela começou o olho a lacrimejar e chorar, contando a história do cachorrinho dela, que tinha dois anos, e como ele se relacionava com a família. O sentimento de dor é muito grande. E ela falava dos objetos, do porta-retrato dela, das fotos da família que ela perdeu na enchente. Então, é um pouco da história da vida das pessoas se vai num momento desse. É um momento de muita dor, e a forma de minimizar essa dor é a presença, é o calor humano, é o abraço…

E eu fiquei muito feliz, eu acho que todos nós estamos pela absoluta solidariedade do povo brasileiro. Nós vivemos, eu que fui governador, um período muito duro, onde quem comandava esse país difundia o ódio, difundia o preconceito regional, quem mora no Sul odiasse o Nordeste, quem mora no nordeste odiasse o Sul. Preconceito contra as mulheres, aumentou a violência contra as mulheres, preconceito contra a negros, fazendo piada descabida contra gordos, contra pessoas… Enfim, todos nós vivenciamos aquele momento de pandemia, de dificuldade.

Hoje você arranca o sorriso de uma pessoa que está em abrigo, quando você abraça, você transmite esperança, quando você diz a ela você não está só, nós estamos aqui.

E eu tenho a alegria de registrar que .não há registro na Defesa Civil Nacional, nas Forças Armadas, nenhum órgão federal, do volume de doações que foi feito ao Rio Grande do Sul, Brasil inteiro, de diversas regiões, do exterior do país.

Hoje, minha assessora de comunicação me mostrou a mensagem de uma francesa, de uma pessoa da França, que diz que ela é viúva, não tem filhos, ela é sozinha e ela queria, já está com a idade muito avançada, ela queria deixar a herança dela de doação para as famílias. Isso é algo impressionante. Então há uma sensibilização mundial disso e nós temos que acolher essas pessoas, dar respostas rápidas.

Nós, essa semana, a AGU está participando, e dialogando com o TCU, com os órgãos de controle, para adotar um normativo ainda mais simplificado, não menos transparente, mas que ele possa ser acompanhado, fiscalizado pelos órgãos de controle, mas a gente consiga dar celeridade a essa tragédia pela dimensão que ela teve.

Fonte: O Globo

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