Quem vencer na Argentina enfrentará grave crise econômica e social; veja infográfico

Catadora em cooperativa na cidade de La Matanza, na Grande Buenos Aires
Catadora em cooperativa na cidade de La Matanza, na Grande Buenos Aires — Foto: Juan Mabromata / AFP

Assim que o resultado das urnas na Argentina for proclamado, o vencedor de uma das mais acirradas disputas eleitorais recentes terá pela frente uma longa lista de tarefas urgentes para ao menos começar uma estabilização econômica, social e política. Os principais indicadores sociais são preocupantes, e não trazem perspectivas positivas para os anos que se seguem.

O atual e impopular presidente Alberto Fernández recebeu um país longe de estar em situação de bonança. A inflação rondava os 50% em dezembro de 2019, quando sucedeu Mauricio Macri na Casa Rosada, e logo em seus primeiros movimentos no cargo precisou enfrentar a pandemia da Covid-19, cujos efeitos são sentidos até hoje não só na Argentina, mas em todo o mundo.

“Cerca de 100 dias depois da posse, o novo governo se viu diante do processo de renegociar a dívida pública em meio a um quadro de contração do PIB, um alto nível de inflação e um mercado de trabalho enfraquecido”, dizia um relatório da Organização Internacional do Trabalho, de 2020.

A inflação chegou a ceder naquele ano, durante o rígido sistema de quarentena (o qual foi violado pelo próprio Fernández, em um escândalo que manchou seu governo), mas voltaria a subir em 2021, ampliando o ritmo a partir de 2022, quando já beirava os 100% ao ano, chegando ao atual patamar de três dígitos — a expectativa é de que a taxa feche 2023 acima dos 150%, mantendo presente um fantasma conhecido dos argentinos, o da hiperinflação.

O tema foi central durante a campanha, e Massa e Milei apresentaram planos distintos. O governista, que também é o atual ministro da Economia, defende uma abordagem pautada pelo aumento das exportações e pela redução dos gastos do Estado. O objetivo, segundo ele, é atingir um déficit zero das contas públicas. Pelo orçamento aprovado pelo Congresso para 2023, o déficit estimado é de 2,5% do PIB, mas o mercado aposta em até 3% do PIB. Massa também aposta em uma renegociação do acordo com o FMI, chamado por ele de “inflacionário”.

Milei é mais radical: defende a dolarização da economia, repetindo o exemplo de Equador, El Salvador e Panamá. A iniciativa foi bandeira central do candidato da extrema direita, ao lado das promessas de acabar com o Banco Central, mas encontrou resistência entre economistas, mesmo os simpáticos à sua campanha. Muitos citam que a dolarização, embora possa trazer bons efeitos em um momento inicial, não é tão positiva a médio ou longo prazo, como mostra o exemplo equatoriano

Mas aí entra uma questão central: como dolarizar uma economia onde há escassez de dólares? A cotação da moeda americana é uma das facetas mais conhecidas da crise, saltando do patamar dos 50 pesos por dólar, em dezembro de 2019, para quase 350 pesos por dólar. Isso pelo câmbio oficial, uma vez que o país tem uma quantidade considerável de cotações, algumas voltadas a impulsionar as exportações, como o “dólar malbec”, outras para a contratação de shows, o “dólar Coldplay”.

Nas ruas, vale o “dólar blue”, o informal, hoje em torno de 930 pesos (em outubro, superou a marca de mil pesos). Para conseguir viabilizar seus planos, Milei defende ideias como privatizar empresas, buscar investidores e até usar os dólares que os argentinos já compram, mas especialistas dizem que são propostas “quase inviáveis”.

Seja qual for a fórmula escolhida pelos eleitores, ela precisará ter como primeiro objetivo atacar um problema crônico da sociedade argentina: a pobreza. Quando Fernández assumiu, há cerca de quatro anos, 35,5% dos argentinos viviam abaixo da linha de pobreza. Pela definição do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), está abaixo dessa linha a pessoa que não tem renda suficiente para cobrir seus gastos básicos com alimentação e itens como vestuário, moradia, educação e transporte.

A taxa atingiu 42% em 2020, em meio ao isolamento e à forte queda do PIB — no segundo trimestre daquele ano, a retração em relação ao mesmo período de 2019 foi de 19%. Com a retomada econômica, o índice começou a cair novamente no início de 2022, mas aumentou novamente no final daquele ano, chegando aos atuais 40,1%. Segundo especialistas, a perda de renda atinge todos os setores da população, especialmente os mais jovens, revelando uma piora constante e cada vez mais grave, e que precisa ser combatida urgentemente pelo próximo presidente.

Fonte: O Globo

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