Para governo Lula, política de integração regional fica sob ameaça com vitória de Milei na Argentina

O presidente Lula (PT) e o presidente eleito da Argentina, Javier Milei, ao lado do deputado federal Eduardo Bolsonaro
O presidente Lula (PT) e o presidente eleito da Argentina, Javier Milei, ao lado do deputado federal Eduardo Bolsonaro — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo/ Divulgação

Antes do segundo turno, uma fonte do governo brasileiro disse ao GLOBO que, caso o candidato da direita radical Javier Milei fosse eleito, não estava garantido que Luiz Inácio Lula da Silva iria à posse, em 10 de dezembro. Além dos ataques feitos por Milei ao presidente durante a campanha — chamando-o inclusive de corrupto e ladrão — há temor pela segurança de Lula.

Para o governo brasileiro, o triunfo do candidato do partido A Liberdade Avança sempre foi o pior cenário, não apenas pelas divergências ideológicas e a proximidade de Milei com o ex-presidente Jair Bolsonaro — que já indicou que pretende ir à posse — mas, também, pela ameaça de retrocesso na política de integração regional, pilar da política externa brasileira.

Lula, que este ano realizou dois grandes encontros com presidentes da América do Sul — em Brasília e Belém — tem como uma de suas prioridades retomar a agenda de cooperação regional. O governo de Alberto Fernández, amigo do petista, foi sócio central desde que Lula retornou ao Planalto. Fernández apoia a reaproximação com a Venezuela de Nicolás Maduro e eleições democráticas e transparentes no país em 2024. Para Milei, a Venezuela é uma ditadura com a qual pode romper relações.

Há divergência profunda entre Lula e Milei sobre a integração latino-americana. O presidente eleito da Argentina pode seguir os passos de seu amigo Bolsonaro e retirar a Argentina da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), e até mesmo interromper o processo de adesão ao Brics, que inclui países com os quais ele já disse não pretender se relacionar e os quais costuma achincalhar publicamente, especialmente a China.

Para o restante da América Latina, aponta Juan Tokatlian, vice-reitor da Universidade Torcuato Di Tella, de Buenos Aires, “o triunfo de Milei representa o impulso à direita mais radical, próximo de posturas extremistas (no geral)”.

— Eleições como esta têm efeito simbólico e real nos vizinhos. Há vínculos históricos, laços políticos, e cada eleição é, no fundo, parte de uma disputa mais ampla, que vai além dos países onde são realizadas — afirma o especialista.

Para Tokatlian, por trás do confronto entre Massa e Milei, estava a disputa em toda a região entre movimentos de direita radical e o que ele chama de “progressistas light”, defensores de reformas mais graduais, preservando conquistas sociais históricas. Entre eles estão Massa e os presidentes de Colômbia, Chile e Brasil, que venceram, ao contrário do ministro da Economia argentino, adversários da ultradireita em pleitos recentes.

E embora integrantes da equipe do direitista radical já tenham assegurado a Brasília que as relações bilaterais seguirão importantes, o presidente eleito argentino ainda é considerado uma incógnita. Em conversas informais com o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, duas das mulheres mais importantes da equipe de Milei — a futura vice-presidente Victoria Villarruel e a economista Diana Mondino, que pode assumir o Ministério das Relações Exteriores — garantiram que a relação com o Brasil seguirá prioritária.Os encontros na embaixada brasileira ocorreram antes do primeiro turno e, confirmaram fontes presentes, Villarruel e Mondino se mostraram interessadas em promover uma relação produtiva e de cooperação com o governo Lula.

No entanto, as falas de Milei sobre respeitar “relações entre setores da iniciativa privada” e não apenas as “entre Estados” aumentaram incertezas até entre os próprios empresários dos dois países. Em evento em Buenos Aires, empresários locais expressaram a Bitelli a necessidade de que a relação bilateral fosse preservada, independentemente do resultado das eleições.

Nesse mesmo evento, o agora presidente eleito voltou a dizer que não se relacionará com “governos comunistas”. Um interlocutor ligado ao Itamaraty diz não crer que o candidato “agressivo” passará agora a ser mais amigável. E cita Donald Trump, nos EUA, e o próprio Bolsonaro, que não mudaram após eleitos.

— Mas agora Milei terá de se adequar às instituições e à realidade da Argentina. O Mercosul é fatia importante do comércio exterior; a China, seu maior parceiro comercial, seguida pelo Brasil; e o Brics, importante fonte de empréstimos e financiamento para um país cujas reservas de dólares estão esgotadas — afirma Flavia Loss, da Fundação Escola de Sociologia e Política de SP.

Em Brasília, há expectativa de que o embaixador Daniel Scioli, que quando governou a província de Buenos Aires teve assessoria pontual de Milei, seja mantido. Seria um alívio para Lula, em meio ao pânico da guinada política de 180 graus. Scioli tem boas relações com nomes do entorno de Milei, entre eles o provável futuro ministro do Interior, Guillermo Francos. Seu nome já teria sido citado a Milei. E ele teria gostado da ideia de continuidade.

Fonte: O Globo

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