Paes diz que negacionismo climático influenciou tragédia no Rio Grande do Sul

Seminário como preparar as cidades para os desafios climáticos e a promoção do bem-estar dos cidadãos
Seminário como preparar as cidades para os desafios climáticos e a promoção do bem-estar dos cidadãos — Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, apontou o negacionismo climático como um dos fatores para exponenciar os impactos da tragédia no Rio Grande do Sul. A afirmação foi feita durante o seminário promovido pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico e a rádio CBN, com o tema “Como preparar as cidades para os desafios climáticos e a promoção do bem-estar dos cidadãos”.

Paes também reforçou a necessidade de ações preventivas junto à população para lidar com eventos extremos nas cidades.

— Em primeiro lugar, cabe a minha solidariedade ao povo do Rio Grande do Sul. A gente fica angustiado de ver um cenário de filme pós-apocalíptico. Essa tragédia também tem a ver com os negacionistas, que geram incredulidade e intolerância na população. Aqueles que acreditavam que o cenário de filme não seria possível estão vendo agora que é. A gente tem que fazer prevenção, com alertas e informação à população — disse Paes.

O prefeito lembrou a força-tarefa feita no mês de março a partir das previsões do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

— Houve muitos comentários de que era um exagero da prefeitura e do governo do estado. Mas essa tragédia no Sul reforça um ensinamento de que a gente precisa ter ações preventivas com a população. Os eventos climáticos acontecerão. Governos têm sido pressionados para isso. E mesmo fazendo um planejamento perfeito, o evento extremo provoca muitos estragos. No Sul, já tinha a previsão, mas a gente demorou 24 horas para ter a dimensão do que estava acontecendo — apontou o prefeito.

Eduardo Paes disse ainda que evitar a expansão da cidade para a Zona Oeste do Rio pode ser uma saída, concentrando a ocupação territorial no Centro e na Zona Norte.

— Geralmente o que acontece? A gente foge do problema e vai só expandindo o território das cidades. A principal mudança de visão urbanística do Rio de Janeiro é de consolidar as áreas de infraestrutura da cidade, trazendo as moradias para essas áreas. O plano-diretor do Rio prevê isso. Se continuarmos garantindo a ocupação habitacional e a expansão imobiliária dentro dessas regiões, o Rio vai conseguir estar mais preparado para as mudanças e os eventos extremos — afirmou.

Segundo Nicola Miccione, secretário estadual da Casa Civil do Rio, as ações das empresas e as políticas públicas têm ajudado a reduzir os danos ocasionados pelos eventos climáticos. Para ele, as ações de prevenção criadas pela prefeitura e pelo governo do Rio podem ser um incentivo ao demais estados para que mais ações deste tipo se realizem:

— A cada ano, (vemos que) os danos são menores. Isso é algo a se exaltar. (…) Vemos o Rio de Janeiro mais preparado para enfrentar (os eventos climáticos) e para ajudar outros estados.

Aldo Rebelo, secretário municipal de relações internacionais de São Paulo, chamou atenção para a desigualdade como um dos principais fatores responsáveis pelas catástrofes climáticas. Segundo Rebelo, o sistema econômico gera tanto riqueza financeira quanto desigualdade, e o combate à desigualdade é uma agenda que as cidades e o G20 precisam discutir.

Ele deu o exemplo da Suíça, cujas moradias são construídas “em cima de morro”. Lá, ele cita que as obras de engenharia se encarregaram de garantir e oferecer segurança à moradia das pessoas. Já aqui no Brasil, a população se aglomerou nos morros por necessidade, mas as obras de engenharia e de prevenção a catástrofes não acompanharam essa ocupação e não foram providenciadas — algo que hoje é observado no próprio estado do Rio Grande do Sul, com redução nos investimentos nas obras de prevenção.

— Não temos nada contra a produção da riqueza, mas temos que encontrar mecanismos para reduzir desigualdades para que os eventos e as tragédias produzidas pela natureza não multipliquem a desigualdade já existente, alcançando a população mais vulnerável.

Ele continua:

— Aqui no Rio Grande do Sul ou no Katrina, os pobres pagam mais. Os pobres afundam e os ricos velejam. Não podemos ter uma situação dessa no nosso país.

Fonte: O Globo

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