O que Milei e Trump deveriam mostrar a Lula

Javier Milei discursa para apoiadores após vitória eleitoral no domingo.
Javier Milei discursa para apoiadores após vitória eleitoral no domingo. — Foto: Luis Robayo/AFP

Viralizou um post no antigo Twitter de uma conta verificada que se apresenta como sendo de Javier Milei, mas que é de apoiadores de sua campanha, com a seguinte formulação com ares de profecia: “Javier Milei 2023/Donald Trump 2024/Jair Bolsonaro 2026”, com as bandeirinhas respectivamente da Argentina, dos Estados Unidos e do Brasil.

É óbvio que cada um dois países tem particularidades econômicas, sociais, históricas e políticas que impedem a simplificação da postagem, mas também é evidente que a resiliência do fenômeno do outsider que chega para implodir as estruturas do establishment se mostra maior que as derrotas de Trump em 2020 e de Bolsonaro em 22 pareciam apontar. E isso requer que o governo Lula e a coalizão que venha a se articular para sua sucessão tomem alguns cuidados.

Reveses como o de Trump e de Bolsonaro não esgotaram o apelo eleitoral da extrema-direita. A celebração da vitória de Milei por aqui, inclusive da parte de políticos órfãos do bolsonarismo, evidencia que esse pessoal está em busca de um caminho para voltar à carga em 2026, e ele tende a se dar pela exploração do fracasso de governos de esquerda em manejar a economia e promover segurança e bem-estar social.

Lula investiu na última perna dessa equação ao recompor o Bolsa-Família e outros programas. Também logrou êxito econômico no primeiro ano de mandato ao conseguir indicadores (de inflação, emprego, renda, juros) melhores que os de Bolsonaro e ao avançar com uma reforma (tributária) e uma política fiscal logo no primeiro ano.

Mas o governo ainda patina na percepção pública sobre seu domínio sobre a agenda da segurança e demonstra incerteza quanto ao rumo que a política econômica tomará doravante. E esses deveriam ser pontos de preocupação em um governo, e uma coalizão, que entendam que sua missão em 2026 não será manter o eleitorado lulopetista, que é fiel, mas manter o eleitor de centro e centro-direita que votou contra Bolsonaro em 22, mas vai olhar com atenção disfarçada o que vai acontecer na Argentina e nos EUA com essa volta por cima da direita — justamente porque já estão começando a torcer o nariz para algumas falas e decisões de Lula.

Lula não será reeleito sem manter ou ampliar o eleitorado que obteve graças à ideia defendida por ele no segundo turno de que faria uma gestão de frente ampla. Se tiver essa percepção muito clara ao longo dos próximos três anos, ele pode ser bem-sucedido em entregar uma gestão econômica fiscalmente responsável, que não caia na tentação de achar que alguma inflação e algum descontrole fiscal são desejáveis para entregar um crescimento maior. Ainda nesse tópico, a tão criticada aliança com o Centrão de Arthur Lira funciona como um antídoto para evitar que o bolsonarismo reconquista uma fatia dos partidos de centro e centro-direita em 2026, o que e fundamental.

A respeito da lógica econômica, o economista Fábio Giambiagi nota que há uma diferença absoluta entre uma discussão de se a inflação de um país no ano será de 3% ou 5%, como ocorre hoje no Brasil, e se ela ficará na casa dos 140% ou 150%, como na Argentina. Isso impede, no raciocínio dele, que se extrapole para o Brasil a sensação de desalento com a economia com a qual o eleitor argentino foi às urnas. “São galáxias completamente diferentes”, diz ele.

Mas ele faz algumas outras análises sobre o fenômeno Milei que deveriam pautar discussões no governo brasileiro e na aliança em torno de Lula. A primeira delas diz justamente respeito à permanência do apelo do outsider. “As democracias ainda se encontram diante do desafio de encontrar líderes que sejam ao mesmo tempo responsáveis e consigam falar com o povo”, analisa.

Para ele, a experiência de países que experimentaram o caminho de eleger outsiders mostra que, no exercício do poder, eles se moldam a alguns padrões ou fracassam no ciclo seguinte. Isso joga uma dúvida a respeito de como o presidente eleito da Argentina vai proceder com promessas de campanha, como a da dolarização, a mais crucial delas.

Mas o simples fato de o eleitor olhar para um candidato como Milei e se identificar deveria servir de alerta para o governo brasileiro de que existe uma insatisfação difusa, que é sobretudo geracional, com fórmulas econômicas e políticas ainda hoje defendidas pela esquerda tradicional e que não dão conta dos desafios do século 21. “Massa ganhou o debate do Milei de 10 a zero. Qualquer um notou isso. Mas, por paradoxal que pareça, o debate reforçou o voto em Milei. Porque o eleitor, sobretudo jovem, olha para aquele sujeito e acha que ele está sofrendo bullying, e pensa: ‘Esse cara sou eu'”, raciocina o economista, de família argentina e que viveu alguns anos de formação no país vizinho.

Se o governo Lula achar que vai encontrar um caminho para esse eleitor jovem, que trabalha na chamada economia “gameficada” ou “uberizada”, por exemplo, oferecendo a ele apenas soluções do sindicalismo dos anos 1970, a chance de haver um abismo de compreensão é enorme.

Da mesma maneira, agendas progressistas como a de direitos humanos precisam ser analisadas pela esquerda à luz dos desafios atuais. Muito se debateu, na Argentina, o fato de um país que realizou um dos mais exemplares julgamentos dos próceres de uma ditadura sangrenta eleger um candidato de extrema-direita que debocha da pauta de direitos humanos. Giambiagi e outros analistas contrapõem essa perplexidade com o fato de que, nas últimas décadas, o kirchnerismo se apossou do discurso dos direitos humanos sem dar a ele alguma consequência prática para a vida de pessoas que se vêm cada vez mais desprovidas de direitos.

Esse deveria ser um ponto de atenção do governo Lula e da esquerda: o de que o discurso tradicional nessa área precisa ser cotejado com a realidade que se vive em comunidades dominadas pelo crime organizado e que só têm algum porto seguro, por exemplo, nas igrejas evangélicas. Só estigmatizar os evangélicos não será um caminho para evitar que a extrema-direita de novo seduza uma parcela do eleitorado com o discurso armamentista que tanto prosperou de quatro anos para cá.

E a ameaça “Trump 2024?”, desde a noite de domingo cada vez mais citada? É claro que a legislação norte-americana difere em muito da brasileira, e propicia que o ex-presidente seja novamente candidato, ainda que esteja condenado em múltiplas frentes.

Mas não deveríamos tirar do horizonte a chance sempre real de reviravoltas judiciais no Brasil (das quais o próprio Lula é uma prova) ou a possibilidade de um Bolsonaro tornado vítima pela narrativa ser um cabo eleitoral mais forte do que as últimas derrotas judiciais e políticas prenunciavam.

Fonte: O Globo

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