O envelhecimento saudável não começa no final da vida

Sala de aula de uma creche, com as crianças sentadas em grupos
Articulista afirma que não há como enfrentar os desafios do envelhecimento sem estabelecer uma relação direta com os cuidados na 1ª infância; na imagem, sala de aula de uma creche

Desde a divulgação do último Censo, que mostra uma população brasileira diminuindo muito mais do que o esperado, venho acompanhando de perto esse debate. As dúvidas levantadas sobre os desafios que o quadro revela são muitas.

Dentre os desafios levantados, alguns se destacam:

Dois pontos chamam a atenção. O 1º é que não há como enfrentar os desafios do envelhecimento sem estabelecer uma relação direta com os cuidados na 1ª infância, fase que vai até os 6 anos de idade. E mesmo assim, essa correlação não surgiu na pauta, até agora.

Outra questão refere-se à discrepância entre o tamanho de uma crise que só aumenta e o alto volume de recursos que o Brasil já destina à 3ª idade. Somos o único país que concentra nos idosos recursos equivalentes a 6 vezes dos que são aplicados para crianças e jovens, segundo relatório da Cepal de 2014.

Como parâmetro, demais nações destinam ao público idoso, em média, 2 vezes o que é alocado às crianças. Para agravar o cenário, o percentual de pobreza vivido no início da vida assusta, acentua e perpetua as desigualdades no nosso país.

Ao todo, 35% da população de 0 a 15 anos vive em situação de pobreza, com menos de R$ 220 por mês por pessoa. No espectro mais velho da população, o percentual é de 4%, segundo dados do Insper/Oppen Social. No caso específico das crianças até os 6 anos de idade, 50% vivem em situação de pobreza, com base no CadÚnico.

Embora a Constituição tenha definido crianças e adolescentes como a única prioridade absoluta do Brasil, e as evidências comprovem os altos retornos de investimentos na 1ª infância, escolhemos investir 6 vezes mais na 3ª idade do que em crianças e jovens. Priorizar significa alocar recursos, humanos e financeiros.

Importante dizer, contudo, que não se trata de uma disputa entre as etapas. Diferentemente disso. O maior risco que corremos nesse momento é cair na polarização, esquecendo da oportuníssima possibilidade de conectá-las e criar benefícios sistêmicos para todos.

Seria possível desfiar uma série de números e constatações científicas produzidas nas últimas décadas para comprovar meu argumento. Mas escolho focar na evidência, produzida em 2021, pelo grupo de pesquisadores liderado por James Heckman, professor da Universidade de Chicago. Heckman ganhou o Nobel do ano 2000 ao mostrar os benefícios econômicos que o investimento na 1ª infância traz para a sociedade. De lá pra cá, sua equipe se debruça sobre avançar nessa mesma linha de pesquisa. A mais recente trata exatamente dos efeitos positivos da educação de qualidade na 1ª infância e comprova que eles se estendem até a meia idade.

Aos 54 anos, os indivíduos do grupo pesquisado apresentaram indicadores mais saudáveis do que 80% das pessoas de mesma idade e perfil social e econômico da turma que não recebeu o atendimento do programa de educação pré-escolar (chamado grupo controle). Eles também tendem a ganhar em média US$ 10.000 por ano a mais do que as pessoas do grupo controle.

Esse é o 1º estudo em que conseguimos medir o impacto duradouro do programa até a meia idade”, disse Heckman e seu time na apresentação dos resultados. “Até então, havia estudos que mostravam resultados sobre a saúde de pessoas de 30 e 40 anos”. A 1ª fase dessa pesquisa (Perry Preschool Program) já tinha constatado que as chances dessas crianças completarem os 12 anos de educação básica do sistema norte-americano é 22 % maior do que no grupo controle.

Essa é uma pesquisa importante porque tem como foco pessoas pretas e pardas de famílias de baixa renda dos Estados Unidos desde seus primeiros anos de vida até depois de seus 54 anos de idade. Poder contar com o acompanhamento de tantas décadas feito por equipes qualificadas e especializadas nesse tipo de levantamento é de valor inestimável para dimensionar o alcance e a eficácia dos investimentos. Além disso, esse é o mesmo perfil da maior parte das famílias que vive abaixo da linha da pobreza com crianças na 1ª infância no Brasil.

Que respostas os dados presentes nesse estudo nos permitem formular para as 3 perguntas do início do texto? Para começar, a melhora dos índices de saúde da população que participou da intervenção mostra que os cuidados com a 1ª infância devem diminuir o gasto de saúde com essa população na velhice.

O aumento da saúde, dos anos de escolaridade e dos ganhos financeiros indicam também que a qualidade de vida dessas pessoas pode prolongar a fase economicamente ativa, respondendo à 2ª questão. O Japão, país com a população mais velha do mundo e considerado referência no tema, investe hoje em estratégias que estimulam os idosos a continuarem trabalhando.

Por fim, o perfil do grupo pesquisado evidencia que o investimento na 1ª infância possibilitou às crianças mais pobres ganhos econômicos expressivos, ano a ano, em comparação ao grupo controle. Com isso, as chances de essa criança que nasceu muito pobre ter construído condições de ter uma vida digna quando quiser se aposentar aumentaram, o que contribui para diminuir os gastos do país com políticas de amparo social.

Outro dado que dialoga e complementa os achados do grupo de James Heckman vem da China. Publicada em 2021, com base no banco de dados longitudinal da população, a pesquisa constatou a importância das brincadeiras e de relações positivas na infância para a saúde mental no futuro. O grupo de idosos que vivenciaram, quando pequenos, convívio saudável com outras crianças apresentaram menor incidência de desordem mental. O desenvolvimento socioemocional promovido pela troca com outras crianças se revelou um fator protetivo mais potente à saúde mental do que a condição social de cada um.

O cuidado adequado com a 1ª infância é uma medida promotora de saúde e mais produtividade. Na ponta do lápis, significa dizer que investir hoje nessa fase da vida é proteger uma geração de pessoas de meia idade dos muitos problemas que assolam os idosos de hoje.

O demógrafo brasileiro José Eustáquio Diniz Alves afirmou, logo que os dados do IBGE saíram, que não há na literatura mundial nada que indique que existe um tamanho de país ou de cidade ideal para que eles sejam um bom lugar para se viver. Essa é uma lembrança importante. Não é ser menor ou maior que determina o capital social e a qualidade de vida de cada local. Tudo depende, na verdade, da capacidade que temos de construir a infraestrutura de serviços e de recursos necessária para zelar pelo desenvolvimento das pessoas, o maior ativo de qualquer geografia.

A despeito dos desafios e do muito a ser feito, somos uma sociedade capaz de produzir exemplos de política pública, de leis e de soluções. O nosso Sistema Único de Saúde é singular; nosso arcabouço de leis de proteção às crianças está à frente da maior parte do mundo –para ficar em só 2 exemplos do que somos capazes. Falta priorizar o que é prioridade desde a Constituição e implementar o que está escrito.

A passagem do tempo sempre nos dá perspectiva histórica. Lá na frente vamos olhar para esse momento como aquele em que deixamos de ser um país jovem e analisar as decisões que tomamos a partir de então. Essa será uma revisão para celebrar o caminho que decidimos seguir ou para lamentá-lo? Acredito mais em construir a 1ª opção. O momento de fazer a escolha é agora.

Minha proposta é ambiciosa e, ao mesmo tempo, factível. Podemos mudar os indicadores de saúde, longevidade e bem-estar da nossa população investindo para que todos tenham plenas oportunidades de se desenvolver integralmente desde o começo de sua história. O envelhecimento saudável começa na 1ª infância.

Fonte: Poder360

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