Níveis atuais de CO2 são os mais altos em 14 milhões de anos, aponta estudo

Queimada na região de Altamira (PA), na Amazônia
Queimada na região de Altamira (PA), na Amazônia — Foto: João Laet / AFP

Os níveis atuais de dióxido de carbono na atmosfera são os mais altos registrados na Terra em 14 milhões de anos, revelou um amplo estudo divulgado nesta quinta-feira, que evoca as condições climáticas inóspitas às quais a humanidade se dirige. Publicado na revista Science, o estudo rastreia os níveis de CO2 desde 66 milhões de anos antes de Cristo até a atualidade, com uma precisão sem precedentes.

“Isto nos mostra até que ponto o que se está fazendo agora é realmente insólito na História da Terra”, explicou à AFP a principal autora do estudo, Baerbel Hoenisch, pesquisadora da Universidade de Columbia, em Nova York.

A última vez que a atmosfera do planeta conteve a mesma concentração do principal gás de efeito estufa (CO2) que hoje, cerca de 420 ppm (partes por milhão), foi entre 14 e 16 milhões de anos atrás. Isto remonta a muito mais tempo do que os cientistas estimaram anteriormente (entre três e cinco milhões de anos atrás). Entre 14 e 16 milhões de anos atrás, por exemplo, não havia cobertura de gelo na Groenlândia.

No entanto, “nossa civilização está acostumada ao nível do mar atual, aos trópicos quentes, aos polos frios e às regiões temperadas, que se beneficiam de muitas chuvas”, adverte Baerbel Hoenisch.

“Nossa espécie (…) começou a evoluir há apenas três milhões de anos”, lembra a cientista. “Nunca experimentamos nada similar a este clima quente”.

Antes da era industrial, a concentração de CO2 na atmosfera beirava as 280 ppm. Com as atividades humanas, aumentaram em 50%, o que provocou um aumento das temperaturas de cerca de 1,2 °C. E se as emissões continuarem, a concentração poderia aumentar até 600 ou 800 ppm, taxas alcançadas durante o Eoceno (entre 30 e 40 milhões de anos atrás), antes de a Antártica estar coberta de gelo e quando a vida silvestre e a flora do planeta eram muito diferentes, com, por exemplo, insetos enormes.

O estudo publicado nesta quinta-feira na revista Science é o resultado de sete anos de trabalho de um grupo de 80 pesquisadores de 16 países. Suas conclusões são consideradas um consenso científico.

A contribuição desta pesquisa não consiste tanto na compilação de novos dados, mas no trabalho minucioso de reavaliação e síntese de trabalhos já existentes para atualizá-los e classificá-los segundo sua confiabilidade, o que permitiu usar os melhores dados para poder desenhar uma imagem geral.

Para reconstruir os climas passados, uma técnica muito conhecida consiste em recuperar das profundezas da calota polar as bolhas de ar que capturaram a composição da atmosfera na época. Mas esta técnica só permite retroceder em centenas de milhares de anos. Para ir além, deve-se recorrer a marcadores indiretos. O estudo químico de folhas antigas, minerais ou plâncton permitiu, assim, reduzir a concentração de CO2 em épocas mais remotas.

Nos últimos 66 milhões de anos, o período mais quente registrado na Terra remonta há cerca de 50 milhões, com uma concentração de CO2 de 1.600 ppm e temperaturas 12°C mais quentes do que as atuais. Estes níveis diminuíram lentamente até cerca de 2,5 milhões de anos e a época das glaciações, quando a concentração de CO2 voltou a cair a 270-280 ppm. Em seguida, mantiveram-se estáveis até que a humanidade começou a queimar combustíveis fósseis em larga escala.

Segundo o estudo, uma duplicação da taxa de concentração de CO2 esquentaria gradualmente o planeta ao longo de centenas de milhares de anos, até alcançar entre +5 e +8°C, devido aos efeitos cascata que um aumento das temperaturas provocaria. Assim, o derretimento do gelo polar reduz sua capacidade de refletir os raios do sol, acelerando ainda mais o processo.

O estudo mostra que há 56 milhões de anos, a atmosfera terrestre experimentou um rápido aumento da concentração de CO2 similar ao que conhecemos hoje e que provocou mudanças maciças nos ecossistemas que levaram cerca de 150.000 anos para se dissipar.

“Ficaremos nisso por muito tempo, a menos que capturemos o dióxido de carbono da atmosfera e interrompamos nossas emissões o mais rapidamente possível”, resumiu Baerbel Hoenisch.

Fonte: O Globo

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