Lula cobra ajuda de países ricos para clima e pobreza e diz que guerra da Ucrânia escancara ‘incapacidade coletiva’

Lula discursa durante o lançamento do programa 'Transição Energética: Combustível para o Futuro'
Lula discursa durante o lançamento do programa 'Transição Energética: Combustível para o Futuro' — Foto: Evaristo Sá/AFP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, em seu discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU, que falta “vontade política” dos governantes mundiais para vencer as desigualdades sociais. Lula voltou a cobrar os países ricos por dívidas ambientais e ressaltou que o desmatamento na Amazônia caiu em 48% durante seus oito meses de mandato. Lula usou o seu discurso para afirmar que a guerra na Ucrânia “escancara a incapacidade coletiva de fazer prevalecer os propósitos e princípios da Carta da ONU” e fez críticas ao Conselho de Segurança, que teria perdido a capacidade de medias conflitos.

O presidente brasileiro falou por 21 minutos e foi aplaudido cinco vezes durante seu discurso. Ao mencionar a desigualdade e a fome no mundo, Lula citou dados do último Mapa da Fome da FAO, que mostrou que 735 milhões de pessoas passam fome no mundo. Lula afirmou que é preciso “vencer a resignação que nos faz aceitar tamanha injustiça” e que “falta vontade política” dos governantes para combate as desigualdades sociais e a fome.

— A fome, tema central da minha fala neste Parlamento Mundial 20 anos atrás, atinge hoje 735 milhões de seres humanos, que vão dormir esta noite sem saber se terão o que comer amanhã. O mundo está cada vez mais desigual.

Lula completou:

— É preciso antes de tudo vencer a resignação que nos faz aceitar tamanha injustiça como fenômeno natural. Para vencer a desigualdade falta a vontade política daqueles que governam o mundo.

Lula discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira, em Nova York, após 14 anos de ausência. Será o primeiro discurso de Lula na sede das Nações Unidas em 14 anos. Tradicionalmente, o Brasil abre a Assembleia Geral, desde que a ONU foi fundada, em outubro de 1945. O presidente afirmouq que retorna “graças à vitória da democracia”, que “garantiu que superássemos o ódio, a desinformação e a opressão”.

Lula se comprometeu em seu discurso a colocar o combate às desigualdades no centro da agenda internacional durante a presidência brasileira do G20, que começa oficialmente em dezembro. O presidente afirmou que o Brasil vai articular a inclusão social e o combate à fome, assim como o desenvolvimento sustentável e reforma das instituições de governança global.

— Ao assumir a presidência do G20 em dezembro próximo, não mediremos esforços para colocar no centro da agenda internacional o combate às desigualdades em todas as suas dimensões. Sob o lema “Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável”, a presidência brasileira vai articular inclusão social e combate à fome; desenvolvimento sustentável e reforma das instituições de governança global.

Em seu discurso de abertura, Lula ainda lamentou as vítimas do terremoto no Marrocos e das tempestades na Líbia. O presidente ainda citou as tempestades do Rio Grande do Sul.

— Desejo igualmente expressar minhas condolências às vítimas do terremoto no Marrocos e das tempestades que atingiram a Líbia, a exemplo do que ocorreu recentemente no estado do Rio Grande do Sul, no meu país, essas tragédias ceifam vidas e causam perdas irreparáveis. Nossos pensamentos de orações estão com todas as vítimas e seus familiares.

Lula voltou a cobrar os países ricos pela dívida com a mudança climática. O presidente afirmou que “agir contra a mudança do clima implica em enfrentar as desigualdades” e afirmou que os países ricos “cresceram baseado em um modelo com alta taxa de emissão de gases danosos ao clima”. Lula ainda cobrou o cumprimento dos acodos climáticos.

— Agir contra a mudança do clima implica em pensar no amanhã e enfrentar as desigualdades históricas. Os países ricos cresceram baseado em um modelo com alta taxa de emissão de gases danosos ao clima. A emergência climática torna urgente uma correção de rumos e a implantação do que já foi acordado.

O presidente ainda afirmou que os países em desenvolvimento não querem “repetir esse modelo” de desenvolvimento e voltou a falar em “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”.

— Falamos em responsabilidades comuns, mas diferenciadas. São as populações vulneráveis no sul global as mais afetadas pelas perdas e danos causados pela mudança do clima. Nós, países em desenvolvimento não queremos repetir esse modelo. No Brasil já provamos uma vez e vamos provar de novo que um modelo socialmente justo e ambientalmente sustentável é possível. Estamos na vanguarda da transição energética. Nossa matriz já é uma das mais limpas do mundo.

Lula ainda afirmou que o desmatamento na Amazônia reduziu em 48% durante os primeiros oito meses de seu mandato e que o Brasil está na “vanguarda da transição energética”.

— Estamos na vanguarda da transição energética. Nossa matriz já é uma das mais limpas do mundo. Retomamos uma robusta e renovada agenda amazônica com ações de fiscalização e combate a crimes ambientais. Ao longo dos últimos oito meses, o desmatamento na Amazônia foi reduzido em 48%.

Lula ainda afirmou que as instâncias de governança global perderam o fôlego nos últimos anos e que reproduzem as desigualdades mundiais, passando a fazer parte do problema, e não da solução.

— O princípio sobre o qual se assenta o multilateralismo – o da igualdade soberana entre as nações – vem sendo corroído.Nas principais instâncias da governança global, negociações em que todos os países têm voz e voto perderam fôlego. Quando as instituições reproduzem as desigualdades, elas fazem parte do problema, e não da solução.

Na sequência, Lula citou o FMI e criticou a organização por emprestar mais dinheiro aos países europeus do que aos africanos.

— No ano passado, o FMI disponibilizou 160 bilhões de dólares em direitos especiais de saque para países europeus, e apenas 34 bilhões para países africanos. A representação desigual e distorcida na direção do FMI e do Banco Mundial é inaceitável.

Lula voltou a defender uma “cultura de paz” e afirmou que a guerra na Ucrânia “escancara nossa incapacidade coletiva”.

— A guerra da Ucrânia escancara nossa incapacidade coletiva de fazer prevalecer os propósitos e princípios da Carta da ONU. Não subestimamos as dificuldades para alcançar a paz. Mas nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo.

Lula ainda afirmou que os conflitos armados são uma “afronta à racionalidade humana” e reinterou que é preciso “trabalhar para criar espaço para negociações de paz”.

— Os conflitos armados são uma afronta à racionalidade humana. Conhecemos os horrores e os sofrimentos produzidos por todas as guerras. A promoção de uma cultura de paz é um dever de todos nós. Construí-la requer persistência e vigilância.

Lula voltou a criticar as sanções econômicas unilaterais e citou diretamente as impostas pelos Estados Unidos à Cuba.

— As sanções unilaterais causam grande prejuízos à população dos países afetados.Além de não alcançarem seus alegados objetivos, dificultam os processos de mediação, prevenção e resolução pacífica de conflitos. O Brasil seguirá denunciando medidas tomadas sem amparo na Carta da ONU, como o embargo econômico e financeiro imposto a Cuba e a tentativa de classificar esse país como Estado patrocinador de terrorismo. Continuaremos críticos a toda tentativa de dividir o mundo em zonas de influência e de reeditar a Guerra Fria.

A oposição ao embargo econômico é histórica na diplomacia brasileira com o objetivo de reiterar que o país não concorda com sanções unilaterais. O governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, no entanto, rompeu com este posicionamento em 2019 e votou contra a resolução da ONU que condenava a medida.

Antes de ir a Nova York, Lula esteve em Cuba para o G77 e também criticou diretamente à sanção econômica.

O presidente aproveitou o seu discurso na ONU para voltar a criticar o Conselho de Segurança e defender a reformulação do colegiado, como tem feito na maior parte das suas agendas internacionais.

— O Conselho de Segurança da ONU vem perdendo progressivamente sua credibilidade. Essa fragilidade decorre em particular da ação de seus membros permanentes, que travam guerras não autorizadas em busca de expansão territorial ou de mudança de regime. Sua paralisia é a prova mais eloquente da necessidade e urgência de reformá-lo, conferindo-lhe maior representatividade e eficácia.

Lula tem tido uma agenda internacional intensa para tentar passar a mensagem de que o Brasil está de volta ao cenário internacional, em uma demonstração clara de ruptura com a política externa de seu antecessor, Jair Bolsonaro. Lula tentará assumir o papel de porta-voz das nações em desenvolvimento, ao defender a maior participação desses países nas grandes decisões mundiais, e voltará a cobrar dos ricos medidas para mitigar os efeitos do aquecimento global.

Além do discurso na ONU, Lula terá uma série de encontros bilaterais com outros líderes, como os presidentes Joe Biden, dos Estados Unidos, e Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, na quarta-feira.

Nesta terça-feira, estão previstas reuniões bilaterais com secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres; com o presidente da República da Áustria, Alexander Van der Bellen; com o chanceler alemão, Olaf Scholz; o primeiro-m inistro do Reino da Noruega, Jonas Gahr Støre; e o presidente do Estado da Palestina e da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas.

O Palácio do Planalto recebeu mais de 60 pedidos de reuniões bilaterais com o presidente brasileiro. Na terça-feira, ele se reuniu com o presidente da Suíça, Alain Berset, e o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown

Fonte: O Globo

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