Israel diz ter assumido controle de corredor estratégico na passagem de Gaza para o Egito para ‘evitar contrabando de armas’

Pessoas se reúnem no lado de Gaza na fronteira fechada de Rafah com o Egito
Pessoas se reúnem no lado de Gaza na fronteira fechada de Rafah com o Egito — Foto: Samar Abu Elouf/The New York Times

Autoridades de Israel anunciaram, nesta quarta-feira, que assumiram o controle de um corredor estratégico que se estende ao longo da fronteira de Gaza com o Egito, ação que o governo israelense já havia declarado necessária para desmantelar o grupo terrorista Hamas. A captura da área, conhecida como Corredor de Philadelphi, supostamente dá a Tel Aviv o controle de uma faixa de terra que estaria repleta de túneis de contrabando que têm canalizado armas para o Hamas.

A medida ocorre enquanto o Exército israelense aprofunda sua incursão em Rafah, no extremo sul da Faixa de Gaza, em meio às cobranças internacionais por um cessar-fogo. A pressão pelo fim do conflito tem crescido especialmente após o último domingo, quando um ataque aéreo de Israel provocou a morte de 45 palestinos, sendo a maior parte mulheres e crianças. A UNRWA, agência das Nações Unidas para refugiados palestinos no Oriente Médio, estima que 1 milhão de pessoas fugiram da cidade nas últimas três semanas.

A captura do corredor pode complicar as relações de Israel com o Egito, que já reclamou sobre o avanço israelense em direção à sua fronteira, incluindo quando Tel Aviv ignorou os avisos globais e enviou tropas terrestres para Rafah no início deste mês. O Egito — primeiro Estado árabe a reconhecer Israel e que historicamente desempenhou um papel de mediador-chave — afirmou que qualquer aumento de tropas no corredor estratégico violaria o acordo de paz de 1979 entre os dois países.

Segundo a mídia egípcia al-Qahera News, que é vinculada ao Estado, Israel está usando as alegações de túneis sob a fronteira do Egito com o enclave palestino como cobertura para sua ofensiva contra o Hamas. De acordo com relatos de uma “fonte egípcia de alto nível” ao jornal, “não há comunicações com o lado israelense sobre às alegações da existência de túneis na fronteira de Gaza com o Egito”. A mesma fonte declarou que a justificativa israelense serve para “prolongar a guerra para fins políticos”.

O anúncio sobre a tomada do corredor fronteiriço veio após um alto funcionário israelense dizer que a guerra do Estado judeu com o Hamas provavelmente durará até o fim do ano — uma previsão sombria para um conflito que já matou mais de 36 mil palestinos, isolou Israel e deixou a região à beira de um confronto mais amplo. Nesta quarta-feira, o conselheiro de Segurança Nacional israelense, Tzachi Hanegbi, disse à rádio pública Kan que esperava “mais sete meses de combate” para destruir as capacidades militares e governamentais do Hamas.

De acordo com a Associated Press, um oficial militar israelense disse que Israel havia notificado o Egito sobre a tomada de controle. Ele afirmou que cerca de 20 túneis, incluindo alguns que eram anteriormente desconhecidos por Israel, foram encontrados durante a operação, bem como 82 pontos de acesso a essas construções.

O ex-primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, publicou no X (antigo Twitter) que a medida significa que “podemos controlar e temos a capacidade de cortar a linha de oxigênio que o Hamas usava para reabastecimento e movimento”. Ele ressaltou que Tel Aviv “continuará permitindo a entrada de alimentos e suprimentos médicos, mas não mais armas”, e que Israel deve reter este corredor “indefinidamente”.

O corredor possui cerca de 100 metros de largura em algumas partes e percorre os 14 quilômetros de comprimento da fronteira do enclave com o Egito. Túneis de contrabando foram cavados sob este espaço para contornar o bloqueio israelense-egípcio, imposto após a tomada do poder pelo Hamas, em 2007, com o objetivo de impedir que o grupo terrorista acumulasse estoque militar. Segundo a AP, alguns túneis eram enormes — grandes o suficiente para veículos passarem — e os residentes de Gaza contrabandearam bens que vão de gado até materiais de construção.

Isso, contudo, mudou na última década, quando o Egito combateu militantes islâmicos na Península do Sinai. Na ocasião, o Exército egípcio, apoiado por milícias tribais, reprimiu os túneis e destruiu centenas deles dizendo que as construções estavam sendo usadas para transferir armas para o Sinai. Ainda assim, desde outubro, quando a guerra em Gaza teve início, Israel tem afirmando que o contrabando continua ocorrendo nos túneis. O governo egípcio, por sua vez, disse que Tel Aviv busca justificar a ocupação ilegal do corredor de Philadelphi.

Em janeiro, o chefe do Serviço de Informação do Estado do Egito, Diaa Rashwan, disse que seu país havia “eliminado esses túneis de uma vez por todas”, incluindo com a criação de uma zona de amortecimento e o reforço da fronteira, tornando “qualquer operação de contrabando impossível, seja acima ou abaixo do solo”.

O corredor faz parte de uma zona desmilitarizada maior ao longo de ambos os lados de toda a fronteira Israel-Egito. Sob o acordo de paz, cada um é autorizado a implantar apenas um pequeno número de tropas ou guardas de fronteira na zona, embora esses números possam ser modificados por acordo mútuo. Na época do acordo, as tropas israelenses controlavam Gaza, até que Israel retirou suas forças e colonos em 2005. (Com AFP)

Fonte: O Globo

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