Irã e Israel seguirão em conflito por procuração ou haverá escalada?

Equipes de resgate trabalham nos escombros do prédio do Consulado do Irã em Damasco
Equipes de resgate trabalham nos escombros do prédio do Consulado do Irã em Damasco — Foto: Louai Beshara / AFP

A Guerra Fria entre EUA e União Soviética durou cerca de 40 anos sem nunca ter se transformado em uma guerra total entre os dois países. Pesou a Teoria da Mútua Destruição Assegurada, na qual os dois lados seriam destruídos no caso de um conflito. Com diferentes nuances, Irã e Israel vivem a sua própria Guerra Fria desde a Revolução Islâmica, há 45 anos, quando o novo regime em Teerã passou a adotar um discurso anti-EUA e anti-Israel.

Assim como Moscou e Washington no passado, Irã e Israel sempre calcularam que um confronto direto entre ambos poderia provocar mútua destruição. A alternativa, similar ao que ocorreu entre soviéticos e americanos, foi levar adiante guerras por procuração e operações clandestinas. Ainda nos anos 1980, o sul do Líbano se transformou em palco para os dois lados se enfrentarem indiretamente. Os israelenses ocupavam a região em uma aliança com uma milícia cristã libanesa. Já o Irã criou, armou e treinou um grupo xiita libanês que viria a se tornar o Hezbollah. No ano 2000, o lado iraniano saiu vitorioso, e o Hezbollah se consolidou na maior arma iraniana contra Israel. Os dois voltariam a se enfrentar em 2006, com pouca mudança no status quo.

A decisão dos EUA de invadir o Iraque em 2003 para derrubar Saddam Hussein, o maior inimigo dos iranianos, ajudou a fortalecer geopoliticamente o Irã. O presente americano foi ainda maior com a instalação de um governo em Bagdá aliado do regime de Teerã. Os iranianos também treinaram milícias xiitas iraquianas nos mesmos moldes que o Hezbollah, mas com foco nos americanos e em jihadistas sunitas, e não nos israelenses.

Já o regime de Bashar al-Assad, embora laico, sempre foi aliado estratégico do Irã. Essa aliança se intensificou com a guerra da Síria. Os iranianos e o Hezbollah instalaram bases no país não apenas para lutar contra grupos jihadistas anti-Assad como o Estado Islâmico e a al-Qaeda, como também para abrir uma nova frente contra Israel.

Os israelenses, por sua vez, priorizaram por anos o combate ao programa nuclear iraniano, visto como uma ameaça existencial. As milícias pró-Irã no Iraque eram consideradas problemas dos Estados Unidos por Israel. Mas na Síria e no Líbano, o cenário é diferente. Ao longo dos últimos anos, Israel vem bombardeando alvos ligados ao Irã no território sírio. Não aceitam uma nova frente nas Colinas do Golã — algo que Assad e seus aliados russos tampouco veem com bons olhos por temerem uma guerra contra Israel.

Já no Líbano, o Hezbollah e os israelenses têm se enfrentado desde o atentado de 7 de outubro. Os israelenses ampliaram bastante os ataques nas últimas semanas e atingem alvos do grupo em áreas bem distantes da fronteira. Já a organização libanesa prefere calibrar suas ações para evitar uma escalada. O Hezbollah existe não para defender o Líbano ou os palestinos, mas para servir como “arma” de dissuasão do Irã contra Israel. Será usada em toda a sua força pelos iranianos quando Teerã achar necessário para defender o Irã.

Alguns avaliam que o momento possa ser agora, depois do ataque de Israel à missão diplomática iraniana em Damasco, matando importantes líderes das Guardas Revolucionárias. Outros discordam. Saberemos em breve se a “guerra fria” prevalecerá como prevaleceu entre americanos e soviéticos ou se teremos uma guerra total entre Irã e seus aliados contra Israel, que poderia sugar os EUA para o conflito mesmo contra a vontade de Washington.

Fonte: O Globo

© 2024 Blog do Marcos Dantas. Todos os direitos reservados.
Proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site sem prévia autorização.