‘Hoje começa a reconstrução da Argentina’, diz Milei em discurso após vitória

Apoiadores de Javier Milei aguardando o resultado do pleito em frente à sede do partido A Liberdade Avança, em Buenos Aires
Apoiadores de Javier Milei aguardando o resultado do pleito em frente à sede do partido A Liberdade Avança, em Buenos Aires — Foto: Luis ROBAYO / AFP

Eleito presidente em uma vitória histórica na Argentina, o candidato da direita radical Javier Milei fez seu primeiro pronunciamento no Hotel Libertador, no centro de Buenos Aires, dizendo que “hoje começa a reconstrução da Argentina”.

— Obrigado a todos os que ajudaram para conseguir o milagre de ter um presidente liberal e libertário — afirmou para seus partidários.

A eleição de Milei com uma diferença de mais de 11 pontos percentuais sobre Sergio Massa marca a pior derrota sofrida pelo peronismo e, desde 2003, pelo kirchnerismo, em 40 anos de democracia. Sem citar Milei, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desejou “boa sorte” ao novo governo, afirmando: “A democracia é a voz do povo”.

Milei recebeu os cumprimentos de seu rival antes mesmo da divulgação dos resultados. Em um pronunciamento, Massa afirmou que ligou para o ultradireitista para parabenizá-lo pela vitória.

— Esta jornada de hoje ratifica uma coisa frente a tanta discussão: a Argentina tem um sistema democrático forte, sólido e que sempre respeita os resultados. Obviamente os resultados não são os que esperávamos, e me comuniquei com Javier Milei para parabenizá-lo, porque é o presidente que a maioria dos argentinos escolheu para os próximos quatro anos — disse o peronista em discurso à nação na noite deste domingo. — Os argentinos escolheram outros caminhos, e a partir de amanhã o dever de dar certezas e dar garantias sobre o funcionamento político e econômico da Argentina é responsabilidade do presidente eleito.

Em seu pronunciamento, Massa afirmou que o projeto peronista defendia o sistema de segurança em mãos do Estado, a promoção da educação pública, saúde pública e a defesa da indústria nacional e das pequenas e médias empresas.

— Entendo os que talvez se sintam zangados ou desiludidos — afirmou. — Quero dizer que tentei deixar o melhor de mim nesta campanha e o fiz convencido porque amo profundamente a Argentina.

Essa foi a segunda derrota de Massa em uma disputa presidencial. Em seu discurso, ele deu a entender que foi a última vez que concorreu, afirmando: “Hoje termina uma etapa em minha vida política”.

Ele finalizou seu pronunciamento agradecendo os “11 milhões dos argentinos que nos acompanharam e que votaram em nós”, afirmando que com eles compartilha a “a convicção e o valor de defender este país inclusivo, no qual acreditamos. Que venham as novas gerações”.

Com uma participação de 76% dos eleitores, um pouco abaixo dos 77,65% registrados no primeiro turno, o fundador e líder do partido A Liberdade Avança se tornará, em 10 de dezembro, o primeiro outsider da História da Argentina a assumir o cargo de presidente.

Numa disputa com idas e vindas e, por momentos, profundamente acirrada, venceu o desejo de mudança dos argentinos. A campanha negativa sobre o candidato, considerada por ele e seus assessores, uma campanha de medo, não conseguiu superar o sentimento antikirchnerista e a vontade de milhões de argentinos de darem uma oportunidade a um candidato que vem de fora do sistema político, prometeu acabar com os privilégios da “casta” e tirar a Argentina do buraco, após décadas de sucessivas crises.

O resultado a favor de Milei confirmou uma tendência regional de candidatos que não são os mais votados no primeiro turno, mas conseguem crescer de forma expressiva em pouco tempo e eleger-se. Nos últimos dois anos, em oito eleições presidenciais latino-americanas nas quais houve segundo turno, cinco candidatos viraram o jogo no Chile, Costa Rica, Guatemala e Equador (em 2021 e 2023).

— A Argentina teve o nono segundo turno em eleições presidenciais na América Latina entre 2021 e 2023, e, como aconteceu e outros cinco pleitos, houve uma reviravolta — comenta Daniel Zovatto, diretor para as Américas do Idea Internacional.

Como conseguiu o admirador dos ex-presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, que surgiu na política local há apenas dois anos, quando foi eleito deputado pela cidade de Buenos Aires com 17% dos votos, derrotar a aliança entre peronistas e kirchneristas sem uma estrutura política sólida, governadores e prefeitos aliados? A resposta é simples: mesmo, em muitos casos, assustados com sua personalidade e propostas polêmicas — várias suavizadas na segunda etapa da campanha —, a maioria dos argentinos priorizou o desejo de tirar kirchneristas e peronistas do poder.

Recentes escândalos de corrupção envolvendo dirigentes da aliança entre peronistas e kirchneristas União pela Pátria na província de Buenos Aires, somados ao desastre econômico, intensificaram uma onda favorável a Milei nas últimas semanas. Antes do provável presidente eleito tornar-se um ator político relevante, havia consenso no país sobre a enorme dificuldade do peronismo de reter o poder, dado o fracasso, principalmente econômico, do governo de Alberto Fernández e Cristina Kirchner, eleito em 2019 no primeiro turno, com 48% dos votos, contra 40% do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019). Mas a candidatura do ministro da Economia conseguiu um bom desempenho no primeiro turno, ficando em primeiro lugar, com 36,78% dos votos. Uma fortíssima campanha negativa sobre Milei rendeu bons resultados, e o candidato da direita radical obteve, no final de outubro, apenas 29,99%.

Na primeira fase da eleição, a máquina peronista entrou em campo com toda sua força, e Milei praticamente não conseguiu ampliar os votos que obteve nas Paso, realizadas em agosto.

Poucos dias depois do primeiro turno, uma grave crise de desabastecimento de gasolina impactou na campanha de Massa, e na reta final, admitem membros de sua equipe, os ataques a Milei não tiveram o impacto conseguido antes do primeiro turno e, paralelamente, o candidato da direita radical começou a colher os frutos de sua aliança com Macri e com a ex-candidata presidencial Patricia Bullrich, que conseguiu 23,81% no primeiro turno.

A opinião generalizada no país é de que as próximas duas semanas, até a posse, prevista para 10 de dezembro, serão tensas e de prováveis turbulências financeiras. As negociações entre Milei, Macri e Bullrich para formar um governo de coalizão devem começar em breve, admitiram fontes próximas da ex-candidata presidencial.

O presidente eleito tem uma equipe pequena, sem experiência política, e precisará de todo o apoio necessário para formar um novo governo. O respaldo do partido Proposta Republicana (Pro), liderado por Macri, foi essencial para o provável triunfo de Milei, e esse respaldo, admitiram fontes vinculadas a Bullrich, ex-presidente do Pro, implicará a demanda de um amplo espaço no futuro governo. Na noite deste domingo, a Coalizão Cívica, que integrava junto ao Pro e outros partidos a aliança Juntos pela Mudança, anunciou sua decisão de abandonar a que foi, até o surgimento de Milei, a principal força opositora da Argentina.

Fonte: O Globo

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