‘Guerra da fumaça’: Amazonas e Pará trocam farpas sobre origem de ‘nevoeiro’; veja quem está certo

Os governadores Wilson Lima (União-AM), à esquerda, e Helder Barbalho (MDB-PA)
Os governadores Wilson Lima (União-AM), à esquerda, e Helder Barbalho (MDB-PA) — Foto: Isac Nóbrega/PR e Antonio Cruz/Agência Brasil

Em meio a um período de seca histórica em Manaus, a capital do Amazonas voltou a registrar áreas com forte fumaça há pelo menos três dias, o que reacendeu uma inusitada rusga política na Região Norte. A ‘guerra da fumaça’ ocorre desde o início deste mês, quando o governador Wilson Lima (União) atribuiu publicamente o problema ao Pará, comandado por Helder Barbalho (MDB).

“Essa fumaça que está vindo aqui, ela está vindo do estado vizinho, do estado do Pará, que, nesse momento, também começa a sofrer os efeitos da estiagem, uma seca histórica em que a gente tem esses problemas de desmatamento e de queimadas”, disse Lima, nas redes sociais, no último dia 2.

Na ocasião, enquanto Manaus amanhecia encoberta com fumaça pelo sexto dia consecutivo, Lima afirmou que o Amazonas tem conseguido reduzir os focos de queimadas desde outubro e sugeriu que o estado vizinho não estava fazendo o dever de casa.

De fato, a quantidade de focos de incêndio vem diminuindo no Amazonas e subindo no Pará. O estado de Wilson Lima passou de 6.991 focos em setembro para 3.858 em outubro, uma queda de 44,8%. No Pará, por outro lado, o número subiu de 9.507 para 11.378 no mesmo período, numa alta de 19,7%, segundo dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Já nos 16 primeiros dias de novembro, o Amazonas teve 469 pontos de calor; e o Pará, 5.925.

Embora o estado do Pará concentre o maior número de focos de queimada, dados de estações de monitoramento de particulados em suspensão indicam que o estado gerido por Barbalho não é responsável pela fumaça observada na capital do Amazonas.

Pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Lucas Ferrante aponta que o estado vivenciou um momento de calmaria nos ventos na época de maior registro de fumaça, o que dificultaria a passagem do Pará até Manaus.

— Essa mudança no padrão dos ventos, que normalmente é de leste para oeste, tem sido invertida pela combinação do El Niño e do fenômeno do “dipolo do Atlântico”. Observamos que os ventos alísios estão enfraquecidos de forma que não se traz umidade para a região amazônica. Esse fato agrava a seca e favorece incêndios criminosos. Com os ventos enfraquecidos, é implausível que a fumaça esteja vindo do Pará para o Amazonas, até porque a fumaça é muito mais densa que a umidade — explica Ferrante.

O especialista destaca que a cidade atingiu teor de particulados PM2.5, que é o que mais afeta a saúde humana, de 314,99 microgramas por metro cúbico de ar (µg/m³), valor que inclusive superou a crise de poluição de Nova Delhi, na Índia.

— Nós temos dados de concentração PM2.5 para Manaus, para a Torre Atto, que fica entre Manaus e o estado do Pará, e para Santarém, no Pará. Observamos que existe uma concentração superior em mais de 100 omicron gramas do particulado em Manaus, se comparado ao registrado na Torre Atto. Se a fumaça tivesse vindo do Pará, se esperaria índices tão altos ou maiores nas outras duas estações. E os valores das duas localidades foram muito menores — diz o pesquisador, que completa:

— Dados desses sensores de qualidade do ar explicam a fumaça de Manaus como tendo origem no norte da rodovia BR-319, ao sul da cidade de Manaus, entre os municípios de Careiro e Autazes, que é uma região onde um novo ciclo de desmatamento movido pela pecuária tem se intensificado e causado os incêndios criminosos originários da fumaça.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) do Amazonas afirmou que as informações divulgadas quanto às ocorrências de queimadas no estado e a presença de fumaça em Manaus e municípios do interior são extraídas do monitoramento coordenado pelo Inpe. Além disso, indicou que as forças ambientais e de segurança pública do Amazonas seguem atuando em ações de combate e fiscalização na Região Metropolitana da capital e no sul do estado. O GLOBO procurou o governo do Pará, mas ainda não obteve retorno.

“A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) reforça que as informações divulgadas quanto as ocorrências de queimadas no Amazonas e a presença de fumaça na capital Manaus, e municípios do interior, são extraídas do monitoramento coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), instituição de excelência em questões como mudanças climáticas, e Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês), instituição do governo norte-americano referência internacional nesse tipo de acompanhamento.

A Sema também reforça que, além dos dados divulgados pelo INPE E NOAA e que podem ser acessados livremente, que constataram que parte da a fumaça que atingiu a capital do Amazonas nos últimos meses teve origem, no estado do Pará, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também confirmou a informação, por meio do presidente Rodrigo Agostinho, no dia 06 de novembro. Já no dia 10 de novembro foi a vez do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas confirmar, nas suas redes sociais, que parte da fumaça sentida em Manaus tinha como origem os incêndios no Pará.

De acordo com imagens do satélite GOES-16, fornecidas pela NOAA, as partículas de fumaça intensificadas nesta quinta-feira (16/11) em Manaus eram oriundas, sobretudo, de queimadas registradas no estado do Pará desde a terça-feira (14/11) e, em menor intensidade, de focos registrados na Região Metropolitana de Manaus (RMM).

Segundo dados de monitoramento do Inpe, nos dias 14 e 15, foram registrados no território paraense 1.478 focos de queimadas, enquanto o Amazonas notificou 166, sendo 31 na RMM. Os níveis de qualidade do ar voltaram a registrar índices moderados, na manhã desta sexta-feira (17/11).

Na quinta-feira (16/11), a qualidade do ar também ficou prejudicada em municípios do baixo rio Amazonas (veja imagens). O material particulado fica mais tempo suspenso na região devido ao calor intenso e chuvas abaixo da média provocados pelo El Niño, uma vez que partículas de fumaça encontram dificuldades em se dispersar nessas condições.

As forças ambientais e de segurança pública do Estado do Amazonas seguem atuando em ações de combate e fiscalização na Região Metropolitana da capital e no sul do estado.”

Fonte: O Globo

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