Frankenstein ou Drácula? Para muitos argentinos, decisão nas urnas será como filme de terror

Ilustração mostrando os candidatos à Presidência da Argentina Javier Milei e Sergio Massa caracterizados como os personagens Frankenstein e Drácula
Ilustração mostrando os candidatos à Presidência da Argentina Javier Milei e Sergio Massa caracterizados como os personagens Frankenstein e Drácula — Foto: André Melo

Logo depois do primeiro turno presidencial na Argentina, em 22 de outubro passado, o dilema se instalou no país: como escolher entre dois candidatos que, para milhões de argentinos, são os piores possíveis e não os representam? O horror a ambos, em alguns setores da sociedade e da classe política, é tão grande que entraram em cena dois personagens de filmes de terror, Frankenstein e Drácula, para ilustrar o tamanho do pânico que despertam.

Um dos primeiros a usarem as criaturas do medo para se referir ao peronista Sergio Massa e ao candidato da direita radical Javier Milei foi o senador Luis Juez, da aliança opositora (atualmente em vias de extinção) Juntos pela Mudança:

— Todos me pedem que escolha entre Drácula e Frankenstein. O momento da Argentina é muito difícil, temos de escolher entre dois personagens. Um deles transformou o país numa favela, e mesmo assim venceu [o primeiro turno], e Milei quer construir um país com uma serra elétrica — disse ele, referindo-se à máquina que virou símbolo da campanha de Milei.

Foi assim como Massa virou Drácula, por ser o ministro da Economia de um país em ruínas, com 41% de taxa de pobreza e, nos últimos 12 meses, 147% de inflação acumulada. O candidato da aliança entre peronistas e kirchneristas União pela Pátria é visto pelos que usam a imagem de Drácula como a figura que está sugando o sangue dos argentinos, numa das crises econômicas e sociais mais graves de sua História.

Já Milei é comparado com Frankenstein pelo medo que provoca entre milhões de argentinos por suas posições — agora suavizadas ou até mesmo negadas — sobre livre porte de armas, venda de órgãos e ruptura de relações com aliados importantes para o país como Brasil e China, entre outras. Em palavras de economistas como Hernán Lacunza, ministro da Economia do governo de Mauricio Macri (2015-2019), o programa de governo de Milei “não é um programa, é um Frankenstein”.

— Milei disse que vai dolarizar, mas não tem reservas, não tem dólares, então não vai conseguir. Disse que vai reduzir em 15% o gasto público, e tampouco poderá fazer isso. Disse que vai reduzir os subsídios em matéria de energia sem aumentar as tarifas, e isso implica um alto risco. Suas propostas são slogans, mais do que propostas — afirmou o economista, cujo ex-chefe agora apoia o candidato da direita radical.

No bairro de Palermo, o jovem Carlos Ballesteros, de 28 anos, que trabalha como vendedor num açougue, usou a mesma imagem para tentar explicar o drama que vivem milhões de eleitores argentinos como ele.

— Com Massa sentimos que estamos cada dia um pouco pior, com mais inflação, moeda mais desvalorizada, mais pobreza, mais arruinados. Com Milei não sabemos, mas tudo o que vemos é assustador. Ele é uma criatura que mete medo — comentou Ballesteros, ainda indeciso sobre o que fazer domingo.

O governador eleito da província de Mendoza, Alfredo Cornejo, da tradicional União Cívica Radical (UCR, um dos partidos mais antigos do país), foi outro dos que aderiram ao dilema do terror.

— Escolher entre Sergio Massa e Milei é como escolher entre Drácula e Frankenstein — disse Cornejo, antes mesmo do primeiro turno, e quando ainda apostava na possibilidade de que a então candidata Patricia Bullrich conseguisse uma vaga no segundo turno, algo que, afinal, não aconteceu.

Jornalistas de longa trajetória na Argentina como Marcelo Longobardi, veterano apresentador de TV, também adotaram a comparação entre os dois personagens.

— A aliança opositora Juntos pela Mudança se rompeu, e no segundo turno os argentinos deverão escolher entre Frankenstein e Drácula — disse Longobardi, logo depois do primeiro turno.

Os reiterados comentários viralizaram nas ruas de todo o país. Como explica a professora Natalia Fernández, de 33 anos, “foi uma maneira criativa de explicar o que sentimos muitos argentinos”.

— Essencialmente, sentimos medo, de ambos. Medo de continuar igual ou ficar cada vez pior, e medo de dar um pulo no escuro — concluiu Fernández, quase decidida a votar em branco.

Fonte: O Globo

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