Em um mês, número de jornalistas mortos no conflito Israel-Hamas é mais que o dobro da guerra na Ucrânia

Colegas da imprensa durante velório do jornalista palestino Mohammed Abu Hatab em Gaza após ataque aéreo israelense atingir sua casa, deixando 11 familiares mortos
Colegas da imprensa durante velório do jornalista palestino Mohammed Abu Hatab em Gaza após ataque aéreo israelense atingir sua casa, deixando 11 familiares mortos — Foto: Yousef Masoud/New York Times

Desde 7 de outubro, Israel e a Faixa de Gaza estão sob os holofotes do mundo. Sempre que uma nova guerra surge, jornalistas locais e de várias partes do planeta vão até a zona de conflito mostrar aquilo que só dá para saber vendo com os próprios olhos. Mas contar esta história tem sido cada vez mais difícil. E perigoso. Em apenas um mês, 37 profissionais da mídia foram mortos enquanto cobriam a guerra entre Israel e Hamas — mais que o dobro do total registrado em 20 meses de confronto na Ucrânia, segundo o Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ).

O número também supera a soma de todas as mortes registradas em Israel e nos territórios palestinos desde 1992, quando começou a série histórica. Dos 37 jornalistas mortos até o momento — mais de um por dia — 32 eram palestinos, quatro, israelenses, e um, libanês. Por trás da mortalidade recorde, há ainda tentativas de censura, ameaças, prisões arbitrárias, ataques a redações e familiares se tornando alvo, denuncia o CPJ.

Um dos profissionais afetados pela guerra é o palestino Nizar Sadawi, 36, correspondente da emissora turca TRT World em Gaza. Jornalista há 17 anos, ele e sua família precisaram abandonar suas casas por causa do conflito. “Sem teto” e sem proteção — já que Israel declarou que não poderia garantir a segurança da imprensa na região — a única maneira que encontrou para ficar “relativamente seguro” foi se abrigar em um hospital. No entanto, diversas organizações internacionais, como a ONU e a Cruz Vermelha, têm denunciado ataques a centros de saúde.

— É praticamente impossível [estar seguro]. Mesmo que a gente use coletes e veículos sinalizando que somos da imprensa, eles não miram em uma ou duas pessoas, mas em um prédio inteiro. Se você estiver lá dentro quando desabar, nada importa — conta Sadawi ao GLOBO por telefone de Gaza. — Não dá para ver claramente os capacetes, então toda vez que vamos gravar do lado de fora do hospital à noite, estamos nos expondo.

Na avaliação de Sadawi, a alta mortalidade dos profissionais em Gaza é mais um “dano colateral” da intensa campanha de Israel — que já matou mais de 10 mil palestinos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas — do que fruto de ataques deliberados. Ainda assim, a perda dos colegas é sentida por todos.

— É importante ter em mente que Gaza é uma comunidade de 365km², o que significa que a maioria de nós [jornalistas] se conhece, ao menos pelo nome. Ontem mesmo, por exemplo, um colega muito respeitado foi morto. Ele era um correspondente famoso da TV Palestina. Nós não éramos amigos, mas todo mundo gostava dele — relata Sadawi em referência a Mohammed Abu Hatab, morto após um ataque aéreo atingir seu prédio na última quinta-feira, vitimando também 11 membros da sua família.

Para o correspondente, mais do que a preocupação com a própria integridade física, seu maior temor é que algo aconteça com a família e a namorada.

— Quando você tem pessoas que ama em uma zona de guerra, fica mais difícil — conta. — O que mais me preocupa durante a guerra é que minha família e minha namorada estão aqui. O fato de a comunicação ser difícil também está piorando as coisas, mal consigo falar com eles uma vez a cada um ou dois dias e até mesmo as mensagens demoram a chegar.

As Forças Armadas de Israel já anunciaram que não podem proteger os profissionais da imprensa em Gaza, alegando estarem atingindo o Hamas em todo o território e acusando o grupo de realizar operações militares “nas vizinhanças de jornalistas e civis”.

Do lado israelense, o correspondente da AFP Nicolas Garcia, argentino de 51 anos, conta que o clima de luto foi perceptível quando chegou a Sderot dois dias após os ataques do Hamas em 7 de outubro, que deixaram 1,4 mil mortos, entre eles três jornalistas.

— Os jornalistas locais quase todos conhecem alguém que foi vitima do ataque do Hamas, tem um lado pessoal que afeta a todo mundo. Um colega meu perdeu um amigo cinegrafista — afirma.

Para Garcia, que foi coordenador dos serviços da AFP no Oriente Médio por três anos e já esteve também em Gaza e na Cisjordânia, a dificuldade para os jornalistas que estão no enclave palestino é ainda maior — segundo ele, comparável ao risco que enfrentou quando cobriu a guerra na Ucrânia diretamente do Donbass, uma zona de conflito ativo.

— O nível de perigo de trabalhar dentro de Gaza é muito grande, como para todo mundo que está lá dentro. Se você está trabalhando do lado de Israel, o risco não tem comparação, a guerra está dentro de Gaza — diz Garcia.

A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) apresentou uma denúncia ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, por possíveis crimes de guerra contra jornalistas cometidos pelos dois lados no conflito. A organização ainda destacou a destruição, total ou parcial, de ao menos 50 escritórios da imprensa em Gaza, mais recentemente um da AFP. “O que está acontecendo na Faixa de Gaza é uma tragédia para o jornalismo, com mais de um repórter morto por dia desde 7 de outubro”, disse em nota Jonathan Dagher, diretor da RSF no Oriente Médio.

Embora a guerra se concentre em Gaza, a escalada para regiões como a Cisjordânia também tem causado preocupação. Na terça-feira, a Associação de Imprensa Estrangeira criticou o que chamou de perseguição israelense a repórteres, que estariam sendo ameaçados e impedidos de acessar locais no território palestino mesmo credenciados.

“Em uma série de incidentes, os repórteres foram barrados em postos de controle, impedidos de atravessar apesar de mostrarem seus cartões de imprensa, e assediados e ameaçados por colonos, alguns usando uniformes do Exército”, afirmou a associação em nota.

A jornalista brasileira Heloísa Villela, que esteve na Cisjordânia ocupada nas últimas semanas, conta que precisou evitar a cobertura de manifestações — que se tornaram ainda mais frequentes com a eclosão da guerra e costumam acontecer perto dos postos controlados pelas forças israelenses — devido à falta de equipamentos de proteção disponíveis a jornalistas. Segundo ela, toda a produção desses itens está sendo direcionada para as Forças Armadas de Israel. Villela afirma existir uma brutalidade contra a imprensa local palestina que não é algo recente.

— Eles [os jornalistas palestinos] tomam muito cuidado, na medida do possível, porque sofrem assédio e violência todo dia há anos. Eu entrevistei uma jornalista de lá que já foi baleada três vezes: no cotovelo, na perna e na cintura — afirma Villela, destacando que a entrevistada era amiga pessoal de Shireen Abu Akleh, jornalista da al-Jazeera morta, segundo uma investigação da ONU, por forças israelenses durante uma operação em Jenin no ano passado. Israel disse ser impossível determinar de onde saiu a bala que a matou.

Por pouco, Villela também não entrou para a estatística durante sua viagem à Cisjordânia. Um dia antes de um ataque ao campo de refugiados de Jenin, a brasileira visitou o local, que é alvo frequente de incursões terrestres.

Fonte: O Globo

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