Com atenção do mundo em Gaza e Irã, ataques de colonos batem recorde na Cisjordânia e deslocam 1,2 mil palestinos

Grafite de estrela de Davi e slogan extremistas na fachada de uma das casas atacadas por colonos israelenses na Cisjordânia
Grafite de estrela de Davi e slogan extremistas na fachada de uma das casas atacadas por colonos israelenses na Cisjordânia — Foto: Zain JAAFAR / AFP

Enquanto os olhos do mundo se voltam para o conflito entre Israel e Gaza e as tensões com o Irã, uma outra parte dos territórios palestinos vê a violência atingir patamares históricos sem a mesma atenção. Desde o início da guerra, em 7 de outubro, ocorreram mais de 700 ataques de colonos judeus na Cisjordânia, com a participação de soldados israelenses em cerca de metade deles, segundo as Nações Unidas. Nesse mesmo período, 17 palestinos foram mortos, 400 ficaram feridos e mais de 1,2 mil foram forçados a se deslocar devido à violência, entre eles 600 menores, disse a ONU.

Um relatório da ONG Human Rights Watch (HRW) divulgado nesta semana revelou detalhes da situação na Cisjordânia, que já via um aumento da truculência antes mesmo de estourar o conflito entre Israel e o grupo terrorista Hamas. Em 2023, o número de ataques de colonos na região bateu recorde, segundo a ONU, atingindo o maior patamar desde 2006, quando teve início a série histórica.

— Colonos e soldados desalojaram comunidades palestinas inteiras, destruindo todas as casas, com o apoio aparente de autoridades israelenses superiores — disse Bill Van Esveld, diretor de direitos das crianças da HRW. — Enquanto a atenção do mundo está voltada para Gaza, os abusos na Cisjordânia, alimentados por décadas de impunidade e complacência entre os aliados de Israel, estão aumentando.

A onda mais recente de ataques começou há uma semana, quando o corpo de um menino israelense de 14 anos foi encontrado após ele ter desaparecido no assentamento de Malachei Hashalom, na Cisjordânia ocupada. A comoção em torno do caso levou a investidas de colonos contra ao menos 17 vilarejos e comunidades palestinas, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, na sigla em inglês).

Quatro palestinos foram mortos durante os ataques, incluindo um menor de 16 anos. Casas e veículos foram incendiados e animais de estimação foram assassinados, segundo Yesh Din, um grupo de direitos humanos israelense.

De acordo com a HRW com base em relatos de moradores de cinco das comunidades afetadas, nenhuma das pessoas despejadas conseguiram retornar ainda para suas casas, e as famílias estão sendo ameaçadas de morte por colonos armados e soldados caso voltem. O Exército rejeitou ou não atendeu aos pedidos de ajuda, segundo a ONG.

Na esteira do episódio, a União Europeia (UE) sancionou na sexta-feira as organizações extremistas israelenses Lehava e Hilltop Youth, além de quatro colonos por ataques contra palestinos na Cisjordânia e em Jerusalém. A medida segue uma decisão de 12 de abril que puniu braços militares do Hamas e da Jihad Islâmica por “violência sexual generalizada” nos ataques de 7 de outubro.

Dois líderes seniores da Hilltop Youth, Meir Ettinger e Elisha Yered, foram sancionados, assim como os colonos israelenses Neria Ben Pazi e Yinon Levi, por atos de violência contra palestinos. Todos eles agora estão proibidos de entrar na UE e todos os bens que possuem no bloco europeu serão congelados.

Os quatro colonos foram sancionados por abusos como “tortura e tratamento cruel, desumano ou degradante” e “violação do direito à propriedade e do direito à vida privada e familiar dos palestinos na Cisjordânia”, de acordo com a UE.

As denúncias foram corroboradas pela HRW, que em seu relatório afirma que os “colonos israelenses agrediram, torturaram e cometeram violência sexual contra palestinos, roubaram seus pertences e gado, ameaçaram matá-los se não saíssem permanentemente e destruíram suas casas e escolas”.

Ainda de acordo com a ONG, que conversou com 27 testemunhas e teve acesso a vídeos filmados por moradores, há registros de soldados israelenses assediando palestinos com rifles de assalto M16.

A HRW afirma que 5,5 mil colonos que são reservistas do Exército de Israel, incluindo alguns com antecedentes criminais de violência contra palestinos, foram convocados para atuar em batalhões de “defesa regional” na Cisjordânia desde 7 de outubro. Grupos de direitos humanos israelenses apontam que mais de 7 mil armas foram distribuídas para esses agentes e “esquadrões de segurança civil” estabelecidos em assentamentos judaicos.

Segundo relatos da mídia local, colonos espalharam panfletos e ameaças nas redes sociais depois do ataque terrorista do Hamas instando os palestinos que vivem na Cisjordânia a “fugirem para a Jordânia” ou então seriam “exterminados”, alertando que “o dia da vingança está chegando”.

A organização de direitos humanos B’Tselem denuncia que, até março deste ano, os colonos israelenses já haviam tomado quase 400 hectares de terras de pastagem palestinas na região desde o início da guerra em Gaza. (Com AFP).

Fonte: O Globo

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