Cientistas nos EUA testam tecnologia para rebater raios solares contra o aquecimento global

Testes com a pulverização de aerossóis nas nuvens têm sido realizados nos últimos anos para combater o aquecimento global
Testes com a pulverização de aerossóis nas nuvens têm sido realizados nos últimos anos para combater o aquecimento global — Foto: Reprodução de vídeo

Pouco antes das 9h de terça-feira, um engenheiro chamado Matthew Gallelli se agachou no convés de um porta-aviões desativado na Baía de São Francisco, puxou um par de protetores auriculares e virou um interruptor.

Alguns segundos depois, um dispositivo parecido com uma máquina de fabricar neve começou a roncar, então produziu um grande e ensurdecedor silvo. Uma névoa fina de minúsculas partículas de aerossol disparou de sua boca, viajando centenas de metros pelo ar.

Foi o primeiro teste ao ar livre, nos Estados Unidos, de tecnologia projetada para iluminar nuvens e rebater raios solares de volta ao espaço, uma forma de resfriar temporariamente um planeta que agora está perigosamente superaquecendo. Os cientistas queriam ver se a máquina que levou anos para ser criada poderia pulverizar consistentemente aerossóis de sal do tamanho certo ao ar livre, fora de um laboratório.

Se funcionar, a próxima etapa seria mirar nos céus e tentar mudar a composição das nuvens acima dos oceanos da Terra.

Iluminar nuvens é uma das várias ideias para empurrar a energia solar de volta ao espaço – às vezes chamada de modificação da radiação solar, geoengenharia solar ou intervenção climática. Em comparação com outras opções, como a injeção de aerossóis na estratosfera, o brilho das nuvens marinhas seria localizado e usaria aerossóis de sal marinho relativamente benignos, em oposição a outros produtos químicos.

No entanto, a ideia de interferir na natureza é tão controversa que os organizadores do teste de terça-feira mantiveram os detalhes bem fechados, preocupados que os críticos tentassem impedi-los. Embora o governo Biden esteja financiando pesquisas sobre diferentes intervenções climáticas, incluindo o clareamento de nuvens marinhas, a Casa Branca se distanciou do estudo da Califórnia, enviando um comunicado ao The New York Times que dizia: “O governo dos EUA não está envolvido no experimento de Modificação da Radiação Solar (SRM) que ocorre em Alameda, Califórnia, ou em qualquer outro lugar”.

David Santillo, cientista sênior do Greenpeace Internacional, é profundamente cético em relação às propostas para modificar a radiação solar. Se o brilho das nuvens marinhas fosse usado em uma escala que pudesse resfriar o planeta, as consequências seriam difíceis de prever, ou mesmo de medir, disse ele.

“Você pode muito bem estar mudando os padrões climáticos, não apenas sobre o mar, mas também sobre a terra”, disse ele. “Esta é uma visão assustadora do futuro que devemos tentar evitar a todo custo”.

Karen Orenstein, diretora do Programa de Justiça Climática e Energética da Friends of the Earth U.S., um grupo ambiental sem fins lucrativos, chamou a modificação da radiação solar de “uma distração extraordinariamente perigosa”. Ela disse que a melhor maneira de lidar com as mudanças climáticas seria se afastar rapidamente da queima de combustíveis fósseis.

Sobre esse último ponto, os próprios pesquisadores da nuvem concordam.

“Espero, e acho que todos os meus colegas esperam, que nunca usemos essas coisas, que nunca precisemos”, disse Sarah Doherty, cientista atmosférica da Universidade de Washington e gerente de seu programa de clareamento de nuvens marinhas.

Ela disse que há efeitos colaterais potenciais que ainda precisam ser estudados, incluindo mudanças nos padrões de circulação e temperaturas dos oceanos, o que pode prejudicar a pesca. O clareamento das nuvens também pode alterar os padrões de precipitação, reduzindo a precipitação em um lugar e aumentando-a em outro lugar.

Fonte: O Globo

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