Chuvas no RS: facções agem para salvar estoques de drogas e armas e ‘compensam prejuízos’ com furtos, diz polícia

Equipes de militares em Canoas
Equipes de militares em Canoas — Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo

As chuvas históricas que assolam cidades do Rio Grande do Sul nas últimas semanas não inundaram apenas casas de famílias, que saíram deixando tudo para trás. Investigações da Polícia Civil apontam que, por causa da enchente, integrantes de facções criminosas passaram a deslocar os estoques de drogas e armas de áreas alagadas para locais secos e a promover furtos para compensar os prejuízos.

Segundo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Rio Grande do Sul é o estado com o maior número de facções criminosas locais no país. Diferentemente de outros lugares, o crime organizado se divide em pequenas células por bairros da capital e de cidades no entorno, onde disputam pontos de venda e rotas do tráfico de drogas.

— Nós acreditamos que eles perderam material ilícito com as enchentes. Assim como destruíram várias casas e comércios, as águas também destruíram estoque de armas e drogas. Nesse sentido, sabemos que uma parte desse material foi colocado nas partes mais altas das cidades. Estamos investigando e monitorando esses locais — disse o delegado Gabriel Borges, titular da 3ª Delegacia de Investigação do Narcotráfico (Denarc).

Na noite de segunda-feira, a Polícia Civil deflagrou a operação “Noite Segura” que envolveu o patrulhamento noturno em áreas alagadas da Região Metropolitana da capital. Os policiais encontraram 20 quilos de maconha em uma casa quase totalmente submersa, com água a 2 metros de altura, no bairro Farrapos, em Porto Alegre.

Quatro dias antes, os agentes interceptaram um translado de 11 quilos de cocaína no bairro Mato Grande, em Canoas (RS). Segundo as investigações, a carga foi deixada em uma área seca após ter sido retirada de um depósito do bairro Mathias Velho, um dos mais atingidos pelas enchentes.

— A gente percebeu que eles estavam fazendo a baldeação (da droga) de barco. Assim como os bandidos estão se adaptando às novas condições, nós também. Começamos a fazer patrulhamento náutico — afirmou o delegado.

Investigações recentes da Polícia Federal indicam o porto de Rio Grande, no sul do estado, como um entreposto importante no escoamento de drogas para Europa e África — o que explica o interesse das facções criminosas pelas cidades gaúchas. Em 16 de abril — 17 dias antes das enchentes históricas —, a PF prendeu dez pessoas suspeitas de integrar um esquema que inseria cargas de cocaína em navios de carga.

As forças policiais também passaram a reforçar a segurança nos abrigos para onde se refugiaram milhares de famílias atingidas pelas chuvas. Só em Canoas (RS), são mais de 180 mil desalojados— mais do que metade da população, de 347 mil, segundo o último Censo. Em meio à população afetada, alguns integrantes de facções rivais acabaram recorrendo ao mesmo abrigo. No campus da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) — o maior abrigo do Estado do Rio Grande do Sul, com cerca de 6 mil pessoas —, eles acabaram se dividindo em pavilhões diferentes.

— Nós temos aqui muitas famílias, idosos, crianças, deficientes e alguns que nós dizemos que são “embolados” com facções. Eles mesmo se organizaram ficando com quem são próximos. Nós falamos para eles: ‘vocês aqui são abrigados e não faccionados’. Eles não têm nenhum controle nem ingerência sobre pavilhões e eles não são bobos de querer conflito aqui — disse o delegado Gustavo Bermudes, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), da Polícia Civil gaúcha.

Segundo Bermudes, o abrigo conta hoje com um efetivo de quatro delegacias diferentes, com cerca de 60 policiais. Por enquanto, não houve nenhum incidente envolvendo membros de facções criminosas.

O clima de insegurança nas áreas alagadas, contudo, têm levado algumas pessoas a optarem por permanecer em suas residências, mesmo com o nível dos rios subindo nos últimos dias. Os investigadores apontam que esses furtos podem estar ocorrendo como forma de as facções cobrirem os prejuízos causados pelas enchentes.

— Não há aumento nos índices de homicídio nem de roubo patrimonial — afirmou o chefe da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, delegado Fernando Sodré. Ele declarou que a ação “imediata” do estado evitou que fosse instaurado um caos social na região.

Fonte: O Globo

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