Chegar a idoso é um prêmio que o Brasil transforma em castigo 

Número de pessoas com 65 anos ou mais de idade cresceu 57,4% em 12 anos, segundo o IBGE; na imagem, idosos em fila

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informa sobre o Censo 2022: “Número de pessoas com 65 anos ou mais de idade cresceu 57,4% em 12 anos”. E ainda aparece autoridade dizendo igual a Toquinho e Vinicius de Moraes: “Eu não tenho nada a ver com isso”.

Talvez a classe política achasse, como na letra do Poetinha, feita em 1971: “No ano 2000, todo mundo vai ser jovem no meu Brasil”. Todo mundo tem tudo a ver com isso. Da infância à juventude, a gente acha que nunca vai envelhecer e a única maneira de isso acontecer é morrendo. O ocaso não vem ao caso. A velhice é um prêmio, não um castigo. Tratemos da vida. Que voa, viu, com turbulência e sem pista para pouso de emergência.

Anteontem eu estava louco para passar no vestibular, ontem me esforçava para ser aprovado em concursos e hoje comemoro meia década de aposentadoria. Repetindo Chico Anysio, é vapt-vupt. É um sopro. Até perdê-lo.

No início de meu 1º mandato no Senado, em 2003, fui escolhido relator do Estatuto do Idoso, projeto do petista gaúcho Paulo Paim desde deputado. Foi o suficiente para ser apresentado na prática ao verdadeiro sinônimo de grupos de pressão. Ali, o parlamentar não pega numa maçaneta porque lobista segura antes para ficar lhe devendo a abertura da porta. E haja pessoas elegantes tentando atrapalhar as conquistas dos idosos.

Queriam impedir o transporte gratuito (o que conseguiram depois, mas por outros meios) e outras novidades da proposta. Pelo prestígio de Paim, o governo barrou apenas uma mudança, ainda assim transversal, no Código de Processo Civil de então (em 2015 viria o Novo CPC), dando aos maiores de 60 anos o direito ao procedimento primário, ganhando em rapidez quando fosse parte em processo.

Discordei do veto, mas salvaram-se os dedos. Desde que o estatuto virou lei, em 1º de outubro de 2003, havia sofrido apenas mudanças cosméticas, até ser atingido duramente pela linguagem do “todes” no politicamente correto. Em 2022, uma iniciativa do mesmo senador Paim substituiu “idoso” por “pessoa idosa” no estatuto inteiro, inclusive no nome. Não sei a utilidade disso, mas como respeito o antigo colega, aceito que mexa em sua criatura, cujo nascimento nos custou infindáveis horas de debate e articulação.

O que isso tem a ver com o envelhecimento do país? Tudo e mais um pouco. A preocupação não é resolver, é não melindrar. Trocam velhice por 3ª idade ou melhor idade. Chamar de “velho” é xingar, prefere-se “vovô”, “experiente”.

Enquanto isso, o IBGE divulga: “De 2010 a 2022, índice de envelhecimento sobe de 30,7 para 55,2”. E explica: “O índice de envelhecimento é calculado pela razão entre o grupo de pessoas de 65 anos ou mais de idade em relação à população de 0 a 14 anos. Portanto, quanto maior o valor do indicador, mais envelhecida é a população”. Ou seja, em 2022 os recenseadores encontraram 552 pessoas com 65 anos ou mais para cada grupo de 1.000 com até 14 anos; em 2010, eram 307.

Em menos de meia geração, cada milheiro ganhou 245 novos idosos (e isso não é um trocadilho infame) nas filas das farmácias, postos de saúde, clínicas de fisioterapia, INSS, benefícios e malefícios. Detalhe: observe que o próprio IBGE esticou a idade numa estratificação para considerar idosos os pós-65. Houve lei passando parte do Estatuto do Idoso para 80 anos. É um caminho os 60 do início deste século serem os novos 80. O Brasil virou o século 19 para o 20 com expectativa de vida de 29 anos; do 20 para este, com 70 anos. Um assombro. E dos bons. Balzac publicou “A mulher de 30 anos” em 1842. Não seria exagero afirmar que a balzaquiana agora seria a centenária.

Quando nasci, em 1961, esperava-se que eu vivesse menos de 5 décadas. Uma menina que vier ao mundo enquanto você lê este artigo viverá 80 anos (73 sendo menino). Se não for o cabeça branca da lancha, personagem de vídeo que virou meme, lhe restarão poucas alternativas de lazer, alegria por perto, esporte à disposição – nem precisa ser náutico, basta uma academia a céu aberto na praça vizinha.

Envelhece-se sem o que fazer. Não tanto quanto sorver a poesia de Vinicius, mas é lindo ouvir que a idade importante é a do espírito ou que tem a mentalidade jovem etc. Escutar e fazer cara de paisagem, pois significa exatamente nada. No Censo 2010, os maiores de 60 eram 20.590.597 ou 10,8% da população. No seguinte, somos 32.113.490 ou 15,6%.

Assombro maior é alguns se impacientarem com linguagem neutra, não em encontrar o que fazer para os 11.522.897 idosos a mais de um levantamento para o outro. Saúde, preparo corporal e profissional, cuidados com o bem-estar são caros em ambos os sentidos, no de queridos e de preço alto. Porém, é viável fazer das rugas sinais de amadurecimento intelectual, não decadência, não definhamento. Um mandamento é: velho não pode ficar ocioso. Então, que tal incutir nessa faixa etária o gosto pela tecnologia? Centros de Convivência de Idosos têm sopão, forró e tricô.

Que tal acrescentar empreendedorismo, rock’n roll e aulas de inteligência artificial? Falo por mim: depois de aposentado, não tive sequer um mês inativo, é trabalhando ou pescando, lendo e ouvindo música, além de obras sociais. Na canção em que previu erroneamente uma nação de jovens, Vinicius profetiza que seríamos “100 milhões só de Pelés e violões” e arremata: “Que país mais tão feliz!”. Acertou. Somos 32 milhões de Pelés craques nas diversas áreas do conhecimento, com expertise inigualável nas demais áreas, alheios ao etarismo e demais ismos. O Poetinha aconselha: “Deixem o Brasil andar”. Nos últimos 60 e tantos anos, nós corremos com ele nas costas. Que país nos escolheu para ser feliz!

Fonte: Poder360

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