Biden e Xi apertam as mãos antes de reunião que tenta diminuir atrito entre as potências

Biden e Xi apertam as mãos em frente à histórica propriedade Filioli, no sul de São Francisco
Biden e Xi apertam as mãos em frente à histórica propriedade Filioli, no sul de São Francisco — Foto: BRENDAN SMIALOWSKI/AFP

O aguardado encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o da China, Xi Jinping, nesta quarta-feira teve início com um aperto de mão, ainda nas escadas da histórica propriedade Filioli, no sul de São Francisco. Biden já havia cumprimentado o homólogo com um sorriso, após o líder chinês ter descido da limusine preta que o conduziu até o local. A cordialidade coreografada dá o tom da reunião entre os líderes, que tem como objetivo estabilizar as recentes tensões entre as duas superpotências, apesar de abordar pontos polêmicos.

Após os cumprimentos iniciais, Biden e Xi seguiram para o interior do imóvel para conversações à porta fechada sobre questões espinhosas como a ilha de Taiwan, sanções no campo da tecnologia e comércio. A primeira manifestação do encontro foi feita pelo americano. Biden afirmou que as opiniões divergentes não deveriam “entrar em conflito”. Xi concordou, respondendo que “virar as costas não era uma opção” para os países

Esta é a primeira visita do presidente chinês aos Estados Unidos desde 2017, e o segundo encontro entre os dois líderes desde que Biden assumiu o cargo, em janeiro de 2021. A última vez que se encontraram pessoalmente foi durante a reunião do G20 em novembro do ano passado, em Bali. Na ocasião atual, o presidente americano lidera a cúpula anual do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), bloco de 21 países — entre eles, a China — que movimenta 60% da economia mundial.

O encontro deve abordar temas que geram atritos entre os países, como as disputas em torno do Mar do Sul da China e a ilha Taiwan, região autônoma que a China considera como parte de seu território. Espera-se que Biden faça uma advertência à China para não interferir nas eleições que acontecerão dentro de dois meses na ilha autogovernada. Esta semana, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Mao Ning, acusou forças externas, sem citar os EUA, e o Partido Democrático Progressista (PDP) em Taiwan de apoiarem uma “agenda separatista” que estariam alterando o status quo, e enfatizou que Taiwan é uma questão interna da China.

Outros temas na agenda entre os presidentes são a guerra da Ucrânia e o conflito entre Israel e Hamas. Washington apoia firmemente a Ucrânia e Israel, tanto diplomática como militarmente. A China, por sua vez, é aliada tanto da Rússia quanto do Irã, que apoia o Hamas. Especula-se que também esteja em pauta um acordo para limitar o uso de Inteligência Artificial em sistemas de armas nucleares.

Os líderes atravessaram uma fase tensa no início do ano, especialmente após o sobrevoo de um suposto balão chinês espião sobre território americano, posteriormente derrubado por ordens de Biden. O incidente exacerbou os atritos entre Pequim e Washington, já balançados desde a visita, em agosto de 2022, da então presidente da Câmara dos EUA, a democrata Nancy Pelosi, a Taiwan. A visita levou a uma resposta furiosa da China, com a realização das maiores manobras militares de sua História ao redor da ilha. O mesmo ocorreu após a visita do sucessor de Pelosi, o republicano Kevin McCarthy (deposto do cargo há um mês), em abril deste ano.

Além disso, uma série de declarações recentes do americano irritaram Pequim. Em agosto, Biden afirmou que a China era uma “bomba-relógio”, referindo-se a seus problemas econômicos, e classificou Xi como um “ditador”. Também restringiu o investimento dos EUA em setores de alta tecnologia na China e proibiu a exportação de microchips de última geração, medida que Pequim considera uma violação dos princípios do livre comércio.

Biden, porém, tem suavizado o discurso desde o último verão (no Hemisfério Norte), quando foram retomados os contatos diplomáticos. Biden enviou este ano vários altos funcionários — incluindo o secretário de Estado, Antony Blinken, a secretária do Tesouro, Janet Yellen, e a secretária de Comércio, Gina Raimondo — à China para deixar claro que, embora os Estados Unidos queiram proteger a segurança nacional, não pretendem cortar os laços econômicos. Durante reunião do Conselho de Segurança da ONU, em setembro, o americano fez outro aceno à China, destacando a capacidade dos países de cooperarem em temas de interesse comum.

Poucas horas antes da reunião, Biden afirmou nesta terça-feira que a China, sob comando de Xi, enfrentava “problemas reais”, o que seria exemplo de “como o restabelecimento da liderança americana no mundo está se consolidando”. Em resposta, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores sublinhou que todos os países têm problemas, incluindo os Estados Unidos.

A Casa Branca informou que Biden dará uma conferência de imprensa sozinho às 16h15 (00h15 de quinta-feira, horário de Brasília) para discutir o encontro, que decorreu à margem da conferência da APEC. Ainda assim, as autoridades norte-americanas minimizam as hipóteses de grandes avanços, embora esteja previsto um acordo sobre o restabelecimento de uma linha direta entre as forças armadas chinesas e norte-americanas, juntamente com a cooperação para impedir o fornecimento da droga fentanil.

No caso de Taiwan, Biden deverá dizer a Xi que os Estados Unidos respeitarão sua política de “Uma só China”, mas que continuarão a dar ajuda militar a Taiwan. Segundo este princípio, Pequim não permite que nenhum país tenha relações diplomáticas com o país e com Taiwan ao mesmo tempo. Apenas 13 países no mundo reconhecem a ilha.

— Não queremos que as tensões no interior de Taiwan evoluam para qualquer tipo de conflito — disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, aos jornalistas horas antes da reunião, acrescentando que Biden deverá também “levantar preocupações sobre os direitos humanos na China”, incluindo a repressão da minoria muçulmana Uyghur.

Apesar da baixa expectativa, os dois países têm traçado uma série de possíveis vitórias desde a primeira visita de Xi aos EUA, quando foi recebido pelo então presidente Donald Trump, em 2017. Uma delas é o restabelecimento da linha direta militar entre os dois países, que Pequim cortou depois que Pelosi visitou Taiwan, em 2022. Também há esperanças de “progresso” na cooperação para limitar as exportações chinesas de ingredientes para o fentanil, opióide que já matou cerca de 71 mil americanos só em 2021, segundo o Centro de Controle e Prevenção de doenças dos EUA (CDC).

Xi também deverá insistir no fim das restrições comerciais e das sanções, uma vez que a economia chinesa está lutando para manter o crescimento após a sua dura política de “zero Covid”. Após a conferência, o líder chinês deverá organizar um jantar com executivos norte-americanos. Na véspera da conferência, os países também se comprometeram a colaborar mais estreitamente na luta contra o aquecimento global.

A Rússia, parceira da China, saudou a reunião de São Francisco, considerando as conversações “importantes para todos”.

Fonte: O Globo

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