Após ‘megajulgamento’ de três anos, Itália condena mais de 200 por elos com a máfia mais poderosa do país

Policial faz segurança em tribunal na Calábria, onde acusados de integrar máfia são julgados
Policial faz segurança em tribunal na Calábria, onde acusados de integrar máfia são julgados — Foto: GIANLUCA CHININEA / AFP

Um tribunal italiano condenou, nesta segunda-feira, 207 mafiosos e pessoas que colaboraram com eles, ao fim de um julgamento histórico de quase três anos contra a máfia ‘Ndrangheta, da Calábria.

Durante mais de uma hora e meia, a presidente do tribunal do sul de Vibo Valentia, Brigida Cavasino, leu continuamente os nomes dos culpados e as suas penas, que variavam de 30 anos a alguns meses, como réus encarcerados em prisões de todo o país assistindo via videoconferência.

Os promotores pediram sentenças que totalizavam quase 5 mil anos para 322 acusados de serem membros ou colaboradores da máfia. Mas, depois de um julgamento que durou dois anos e nove meses, o tribunal impôs penas que chegam a quase metade desse tempo total. Entre os condenados, estão quatro membros experientes da ‘Ndrangheta, cada um deles condenado a 30 anos de prisão.

O painel de três juízes absolveu 131 arguidos, incluindo 16 para os quais os procuradores recomendaram a absolvição.

Ressaltando os laços estreitos da ‘Ndrangheta com os poderosos, um dos réus mais destacados do julgamento foi o ex-parlamentar e advogado de defesa de 70 anos Giancarlo Pittelli, acusado de ser um negociador da máfia. Ele recebeu pena de 11 anos, menos do que os 17 anos solicitados pelos promotores.

Algumas dezenas de membros da família estavam sentados no fundo da vasta e estreita sala do tribunal, semicerrando os olhos para as telas de televisão para ver seus entes queridos na prisão e, ocasionalmente, gritando de alegria por causa de uma sentença mais leve.

Os veredictos – dos quais cabe recurso duas vezes – fecharam o maior julgamento da máfia em Itália em décadas e, apesar das absolvições de segunda-feira, marcam o golpe mais significativo até hoje contra um dos mais poderosos grupos do crime organizado do mundo.

Giuseppe Borrello, representante local da associação antimáfia Libera, disse que o veredicto mostrou que os esforços dos promotores estavam funcionando, mesmo que tenham sido insuficientes para todos os suspeitos.

“O caminho ainda é longo, mas já foi traçado, isso é o mais importante”, disse Borrello à AFP.

A ‘Ndrangheta floresceu para além das suas raízes, na região pobre da Calábria, na ponta da bota italiana, para exercer um quase monopólio no comércio europeu de cocaína. Agora, é encontrada em mais de 40 países em todo o mundo.

Desde o início do julgamento, em janeiro de 2021, o tribunal ouviu milhares de horas de depoimentos, incluindo de mais de 50 ex-agentes da máfia que se tornaram testemunhas do Estado, detalhando exemplos da brutalidade da ‘Ndrangheta e do seu domínio sobre o território.

As práticas criminosas incluem a realização de emboscadas violentas, a extorsão de empresários, a fraude em concursos públicos, o armazenamento de armas, a compra de votos ou a distribuição de propinas aos poderosos.

O chefe do grupo, Luigi “O Supremo” Mancuso, de 69 anos, foi retirado da lista de réus no ano passado para ser julgado separadamente.

Pela primeira vez nestes julgamentos, a lista de réus incluía muitos membros que não eram da máfia, incluindo polícias, funcionários públicos e outros. O tribunal condenou um membro de alto escalão da polícia financeira que trabalhava no departamento antimáfia italiano a 10 anos de prisão, por exemplo. Ele foi considerado culpado de transmitir detalhes das investigações judiciais à ‘Ndrangheta.

O julgamento revelou como a ‘Ndrangheta – cujos membros ostentam apelidos como “O Lobo”, “Gordo”, “Querido” e “Coxa de Cordeiro” – sufocou a economia local, infiltrou-se em instituições públicas e aterrorizou o seu povo durante décadas.

Informantes – um fenômeno relativamente raro dentro da ‘Ndrangheta devido aos laços de sangue entre os membros – contaram como as armas foram escondidas nas capelas dos cemitérios e as ambulâncias usadas para transportar drogas. Contaram também como o abastecimento de água municipal foi desviado para as plantações de maconha.

Aqueles que se opunham à máfia encontraram cachorrinhos mortos, golfinhos ou cabeças de cabra largadas nas suas portas ou tiveram os carros incendiados. Menos sorte tiveram aqueles que foram espancados ou baleados – ou aqueles cujos corpos nunca foram encontrados.

Centenas de advogados e algumas dezenas de membros da mídia assistiram à sentença no bunker fortemente protegido do tribunal na cidade calabresa de Lamezia Terme. Também esteve presente Rocco Mangiardi, 67 anos, um empresário local e um dos primeiros a denunciar a ‘Ndrangheta por extorsão perante um juiz em 2009.

Mangiardi, que vive sob escolta policial desde então, lamentou a baixa participação no momento mais importante do julgamento.

“Este tribunal deveria estar cheio de cidadãos”, disse ele à AFP. “Para mostrar aos juízes que estamos do lado deles e depois dizer aos mafiosos com a sua presença: ‘Não queremos vocês’”.

Há muito rejeitados como meros ladrões de gado, os ‘Ndrangheta floresceram fora do radar policial durante décadas, enquanto as autoridades concentravam esforços contra a Cosa Nostra, da Sicília – réus no primeiro e lendário maxi-julgamento de 1986-1987 em Palermo.

Hoje, os especialistas da máfia estimam que a ‘Ndrangheta, composta por aproximadamente 150 famílias calabresas e seus associados, arrecade mais de 50 bilhões de euros anualmente em todo o mundo através do tráfico de drogas, da usura, do desvio de fundos públicos e da extorsão.

Contando com testas de ferro, empresas de fachada e favores da elite, a ‘Ndrangheta reinveste ganhos de origem ilícita na economia global legalizada, consolidando o seu poder.

Fonte: O Globo

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