Antigo ‘morro do crack’, novo centro olímpico de Paris desperta esperanças de regeneração em região tomada pelas drogas

Barraca embaixo da ponte Bir Hakeim, em frente à Torre Eiffel
Barraca embaixo da ponte Bir Hakeim, em frente à Torre Eiffel — Foto: MIGUEL MEDINA / AFP

O único novo local esportivo permanente construído no centro de Paris para as Olimpíadas deste ano abriu suas portas neste domingo em uma área da capital que espera mudar sua reputação de tráfico de drogas e crime. A Arena Porte de la Chapelle, com 8 mil lugares, localizada logo dentro da via circular da capital, é uma parte importante dos esforços de regeneração centrados em um dos bairros mais carentes de Paris.

A área da Porte de la Chapelle, que sediará o badminton e a ginástica rítmica durante os Jogos de Paris de 2024, era até recentemente o local do chamado “morro do crack”, um ponto de encontro para até 300 viciados em seu pior momento em 2020.

Desde que se tornou um símbolo dos problemas de drogas da capital, a polícia intensificou as patrulhas, enquanto o morro foi redesenhado e plantado com árvores, dispersando os traficantes e seus clientes.

— Nestes últimos dois meses, temos muito menos viciados na área porque eles se mudaram — disse o presidente da associação de moradores local Vivre au 93 La Chapelle, Jean-Michel Metayer, à AFP.

Os acampamentos de migrantes que eram também uma característica constante sob as seções elevadas da via circular próxima e da autoestrada A1 também foram impedidos de se formar, sob táticas criticadas por algumas instituições de caridade.

— Todos nós esperamos que o trabalho mude a reputação da área, que não é muito boa — acrescentou Metayer.

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, que lançou sua campanha de reeleição a partir da Porte de la Chapelle em 2020, fez da nova arena uma parte central de uma reforma de € 500 milhões (R$ 2,6 bilhões) do distrito.

Outros esforços de regeneração incluem a remoção da principal avenida, que serve como uma rota importante para o centro de Paris.

O espaço para carros foi dramaticamente reduzido, enquanto ciclovias com bordas de granito, calçadas e centenas de árvores foram adicionadas, refletindo as prioridades políticas eco-conscientes dos 10 anos de Hidalgo no poder.

— As pessoas costumavam falar sobre esta área como uma “zona proibida” — disse Hidalgo aos repórteres no domingo, enquanto inaugurava a arena, acrescentando que achava a descrição “injusta para os moradores locais”. — Mas nós nos comprometemos a mudar as coisas. Hoje temos a demonstração de que a mudança é possível.

A arena — de propriedade da cidade de Paris e com a marca Adidas Arena — se tornará o lar do ambicioso clube de basquete Paris Basketball, que jogará sua primeira partida lá neste domingo.

No final de 2025, um local de pesquisa universitária, Campus Condorcet, também abrirá nas proximidades para até 4.500 pessoas diariamente.

— Entre o campus e a arena, temos dois componentes importantes que vão reconfigurar e transformar a área — disse Nicolas Dupeux, diretor-geral da empresa operadora da arena, Paris Entertainment Company, à AFP. — Com esporte, música e restaurantes, esperamos que 1,2 a 1,3 milhão de pessoas venham aqui por ano. Isso é massivo. Esse influxo vai criar uma dinâmica na área.

Os organizadores dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris de 2024, que ocorrem de 26 de julho a 8 de setembro, estão ansiosos para apresentar seus Jogos como um novo modelo de baixo orçamento, com quase todos os esportes acontecendo em infraestrutura pré-existente ou temporária.

Um novo centro aquático também foi construído do zero, a alguns quilômetros de distância do outro lado da via circular.

Outras instalações, incluindo o estádio nacional Stade de France, estão sendo atualizadas, enquanto eventos como skate, vôlei de praia ou tiro com arco estão programados para ocorrer em locais efêmeros espalhados pela cidade.

Ajudar a regenerar a área da Porte de la Chapelle, bem como os subúrbios próximos de Saint-Ouen e Saint-Denis, onde outros investimentos olímpicos foram concentrados, é visto como uma das conquistas de legado mais promissoras dos Jogos.

Mas muitos moradores locais ainda precisam ser convencidos.

— É ótimo investir milhões para melhorar a avenida, mas isso não vai resolver os problemas de segurança — disse o gerente de bar local Salim Aouchiche à AFP.

Metayer, da associação de moradores, concordou.

— Durante os Jogos, haverá 40 mil policiais de plantão. A pergunta que muitas pessoas estão se fazendo é o que vai acontecer depois? — acrescentou.

Fonte: O Globo

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