Agropecuária em tempos de mudanças climáticas: vítima ou vilã?

Vegetação nativa do Cerrado tem dado lugar a plantações de soja
Vegetação nativa do Cerrado tem dado lugar a plantações de soja — Foto: Michel Filho

Excesso de chuva,  de seca, de ventos e, mais recentemente, de calor. As mudanças muito intensas do clima têm afetado o agronegócio. Há um ponto a ser levantado, no entanto, até que ponto a agricultura e pecuária têm responsabilidades por essas mudanças? Diferentemente de uma atividade desenvolvida dentro de uma fábrica, a agricultura, de fato, está muito exposta às oscilações do clima.

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Paula Packer, chefe geral da Embrapa Meio Ambiente, disse nesta segunda-feira, no  2º Fórum Futuro do Agro, realizado pela Globo Rural, que a agricultura é a “grande vítima de eventos climáticos extremos”. 

De fato, eventos climáticos extremos já causaram um prejuízo no setor de R$ 33,7 bilhões, este ano. Em uma década, as perdas acumuladas são de R$ 300 bilhões.

Por outro lado, o agronegócio brasileiro poderia ajudar no combate a essas mudanças climáticas,  criando uma relação mais amigável com o meio ambiente. Não pode haver uma visão predatória da natureza.

E isso acontece com muita frequência, já fiz reportagens que mostram que as áreas de desmatamento são transformadas em  viram pastos e depois viram plantação de soja, é um caminho frequente.

Os produtores de soja firmaram um acordo denominado Moratória da Soja, que é uma iniciativa objetiva para assegurar que a soja, produzida no bioma Amazônia e comercializada pelos seus signatários, esteja livre de desflorestamentos ocorridos após 22 de julho de 2008. Esse acordo foi firmado em 2006 e vem sendo renovado. 

Já a pecuária tem desrespeitado o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado por eles com o Ministério Público Federal na Amazônia para interromper o desmatamento que a atividade realiza na região. Isso preocupa.

É preocupante também como a bancada ruralista, que representa o agronegócio brasileiro, abraça pautas que , em geral, são lesivas ao meio ambiente. Mais liberação de veneno, mais flexibilidade de legislação ambiental,  mais desmatamento. Um dos exemplos foi a aprovação, em maio deste ano, de uma flexibilização da proteção da Mata Atlântica, que tem apenas um restinho de bioma. Agora a bancada se organiza para derrubar o veto do presidente Lula à lei que tem o potencial de aumentar o desmatamento no bioma mais ameaçado do Brasil, que é a Mata Atlântica. 

Os empresários do agronegócio precisam ter uma visão geral mais atualizada do próprio negócio. Precisam ter visão estratégica e analisar todos os riscos do negócio, entre eles os das mudanças do clima.

Sim, eles são vítimas, mas muitas vezes também podem ser os vilões. Essa é uma dicotomia básica do agronegócio brasileiro, que é tão importante para a economia do Brasil. O setor é o maior responsável pelas exportações e pelo saldo comercial. O país precisa do agronegócio, mas suas bandeiras estão equivocadas.

O segmento – que tem embarcado tantas novas tecnologias na atividade de produção – precisa também repensar seus valores e os projetos que apoia no Congresso. Porque não se pode ser moderno pela metade. E a mudança climática exige um novo comportamento. Ela ameaça a todos nós, mas, sem dúvida, quem está na linha de frente é exatamente a pecuária e a agricultura brasileira.

Fonte: O Globo

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