A redenção da Caatinga: novos estudos derrubam preconceitos em relação ao bioma e suas potencialidades

A Caatinga é o bioma brasileiro mais injustiçado de todos. Já foi classificada como um ambiente hostil, inabitável e pobre, do ponto de vista da biodiversidade. Já foi acusada até mesmo de ser uma fonte de emissão de gases de efeito estufa e potencialmente prejudicial ao clima. Essa aversão era disseminada especialmente pelo fato de que pouco se estudava e conhecia sobre este bioma. Assim, estabeleceu-se o preconceito de que caatinga, por não ter valor, supostamente poderia ser derrubada sem maiores crises – ambientais ou de consciência – para a queima da lenha nativa ou substituída por pastagens.

Felizmente, estudos nas áreas de clima, botânica e ecologia tem provado o contrário: a caatinga é uma floresta rica em biodiversidade vegetal, plantas medicinais, compostos bioativos naturais de interesse das indústrias farmacêutica e de cosméticos e em biodiversidade animal. Do ponto de vista climático, uma pesquisa da UFRN mostrou que a caatinga é muito eficiente na absorção do gás carbônico e tem uma relevante contribuição para o equilíbrio do clima.

Agora, uma nova pesquisa foi apresentada, apontando os mecanismos que controlam a evapotranspiração na Caatinga, baseada em resultados de observações em campo durante o período de seca. Os resultados sugerem que, na estação seca, a evapotranspiração foi controlada pela umidade do solo e, na estação chuvosa, esta foi parcialmente controlada pela energia disponível, tornando possível o avanço no conhecimento sobre a variabilidade diária, sazonal e interanual da evapotranspiração e das suas características de controle.

O estudo foi o tema da tese de doutorado em Ciências Climáticas do professor Thiago Valentim Marques, chamada Mecanismos biofísicos e características de controle da evapotranspiração da Caatinga em anos de seca extrema. Thiago diz que as informações são positivas para a calibração de modelos para fazer representações mais realistas sobre o bioma.

“A evapotranspiração, que é a soma da evaporação da água pela superfície do solo com a transpiração dos vegetais, foi avaliada em um ambiente preservado e observando os controles ambientais e biofísicos, para analisar o seu comportamento e a umidade do solo”, explica, Thiago. A pesquisa de campo teve início em 1º de janeiro de 2014, encerrou em 31 de dezembro de 2015 e foi finalizada em 2020.

A análise observacional revelou também que os menores valores da evapotranspiração ocorreram como consequência da perda de folhas pela maioria das espécies vegetais ou pelo fechamento parcial dos estômatos das poucas espécies que mantém folha durante todo o ano (espécies semidecíduas), provocados pela baixa umidade do solo no período em consequência da ausência de chuvas.

Os maiores valores de evapotranspiração foram registrados no período chuvoso, quando as espécies da Caatinga estiveram em plena atividade fisiológica e metabólica. Durante o período seco, as árvores do bioma Caatinga otimizam o uso da água a fim de evitar o estresse ocasionado pelo déficit hídrico, tornando-se mais resiliente à redução da disponibilidade de água no solo.

Desse modo, conclui a pesquisa, os principais mecanismos de controle para os fluxos hidrológicos na Caatinga precisam de mais atenção em pesquisas futuras, particularmente na transpiração via monitoramento do fluxo de seiva. Além disso, os resultados do estudo podem ser benéficos na construção de modelos mais precisos e robustos para fornecer entradas de parâmetros-chave em modelos de mudança climática.

Como perspectiva futura, o pesquisador imagina que o estudo possa comparar resultados da evapotranspiração em anos contrastantes, avaliando também a umidade do solo em profundidades múltiplas

Ecossistema rico

As Florestas Tropicais Sazonalmente Secas (SDTF, do inglês Seasonally Dry Tropical Forests) estão entre os biomas mais importantes em termos de fluxos hidrológicos e de carbono locais/globais e sua vulnerabilidade. O bioma Caatinga é uma das maiores SDTF do mundo e  ocupa uma área contínua de quase 845 mil km².

Estudos como esse podem mudar a forma como enxergamos a caatinga e as suas potencialidades, como explica o pesquisador e professor do curso da Meteorologia da UFRN, Bergson Bezerra.

“Uma de nossas metas é reafirmar o importante papel da Caatinga enquanto ecossistema e despertar na sociedade e nas autoridades a importância de se preservar e conservar esse ambiente. Acreditamos que apenas o conhecimento científico pode quebrar o paradigma da Caatinga como ecossistema de baixa categoria, digamos assim. Esperamos que o argumento científico sensibilize os tomadores de decisão e direcione as políticas públicas ambientais de modo a aumentar a atenção para a preservação e conservação da rica biodiversidade da Caatinga”, defende Bergson.