‘A casta tem medo!’, exclamam eleitores de Milei na Argentina

Apoiadores comemoram a vitória de Javier Milei no Obelisco, em Buenos Aires, no segundo turno da eleição presidencial argentina neste domingo
Apoiadores comemoram a vitória de Javier Milei no Obelisco, em Buenos Aires, no segundo turno da eleição presidencial argentina neste domingo — Foto: Carlos Reyes/AFP

Multidões repetiam em Buenos Aires “A casta tem medo!”, o grito de guerra contra a classe política que convenceu os argentinos a eleger como presidente o ultradireitista Javier Milei e sua proposta disruptiva para tirar o país da crise.

“Liberdade! Liberdade!”, repetiam milhares de simpatizantes que se reuniram no comando de campanha e depois em torno do icônico Obelisco, após a divulgação do resultado favorável ao economista de 53 anos.

“Chega do modelo empobrecedor da casta (política), hoje voltamos a abraçar o modelo da liberdade para sermos potência mundial”, antecipou Milei em seu discurso da vitória.

“Apesar da situação sombria, quero dizer-lhes que a Argentina tem futuro. Este futuro existe, se este futuro for liberal”, acrescentou, antes de concluir, exclamando, “Viva a liberdade, caralho!”.

Em meio a sinalizadores e fogos de artifício, a multidão ouvia, entusiasmada, seu discurso. No meio dela estava Matías Fasson, um publicitário de 23 anos, que se dizia inspirado: “Ele me faz sentir que a Argentina tem futuro”, afirmou.

Tanto no comando de campanha quanto no Obelisco, milhares de pessoas agitavam bandeiras argentinas e amarelas com a insígnia do leão, símbolo de Milei, e que estavam à venda “a dois dólares” (cerca de R$ 10) em apoio a seu plano de dolarização da economia.

“Sinto esperança porque é uma mudança de 180 graus, sobretudo porque vai mudar a conversa. Muita gente simpatizou com suas ideias de liberdade”, disse Nicolás Herrera, editor de conteúdo de 30 anos.

Miguel Besnador, técnico de refrigeração de 57 anos, estava eufórico e convencido de que Milei resolverá os problemas que afligem os argentinos.

“A proposta de dolarização não pode ser feita imediatamente porque não temos os dólares e a inflação não vai cair em dois dias, isto nem o Mandrake faz”, admitiu, referindo-se à inflação de 143% ao ano e os 40% da população na pobreza.

“Mas às vezes é preciso chegar ao fundo do poço para subir”, acrescentou.

Cerca de 55,7% dos eleitores optaram pelas promessas de mudança de Milei, que se define como um anarco-capitalista, contra 44,3% que elegeram o ministro da Economia, Sergio Massa.

Os argentinos viveram exasperados e apreensivos durante uma campanha muito polarizada e que ambas as partes sentiam que decidirá o futuro do país pelo antagonismo das duas opções.

O voto em Milei tirou do poder o kirchnerismo da atual vice-presidente e duas vezes presidente Cristina Kirchner e que dominou a política argentina nos últimos 20 anos, exceto pelo intervalo no qual governou o liberal Mauricio Macri (2015-2019).

“A Argentina sem Cristina”, “Cristina vai ser presa” e “que todos vão embora, que não fique nenhum”, cantava a multidão, que comemorava o presidente eleito em um clima de euforia.

Em meio a buzinaços e toques de trombetas, Sonia dos Santos, professora de 36 anos, estava exultante. “Estávamos vivendo em uma ditadura disfarçada de democracia, onde a gente não podia escolher; eu quero um país livre”, disse, referindo-se ao peronismo em fim de mandato.

“A Argentina é assim, quando menos se espera, abraça o tirano. Depois, chora”, disse Diego Avellaneda, um metalúrgico de 55 anos, no comando de campanha de Massa, onde os apoiadores do ministro peronista sentiam-se devastados pelo desânimo.

“Vamos voltar em quatro anos com tudo feito merda e reconstruindo os pedaços do país que ele vai deixar”, disse, aos prantos, Camila Velaron, de 20 anos.

Velaron foi ao comando de campanha com um grupo de amigas, todas vestindo camisetas violetas com a inscrição “Todes unides venceremos”, em alusão aos direitos que coletivos feministas e LGBT sentem que estão ameaçados durante um governo de Milei.

Milei nega que exista uma brecha salarial entre homens e mulheres e rejeita o consenso de 30.000 desaparecidos na última ditadura (1976-1983), estabelecido por organizações de direitos humanos, estimando o número em menos de um terço.

Além disso, afirma que as mudanças climáticas não são causadas pelas atividades humanas.

Fonte: O Globo

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