Marcos Dantas

Comissão formada por conselheiros e pelo Sindsaúde visitou o hospital na manhã de hoje. Pediatria pode ser fechada.


A situação de crise no hospital Giselda Trigueiro, especializado no atendimento de doenças infecto-contagiosas, será apresentada na manhã desta terça-feira (01), na reunião do Conselho Estadual de Saúde (CES). A reunião ocorre no auditório da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap), a partir das 08h30. O secretário estadual de Saúde, George Antunes, estará na reunião para discutir o panorama financeiro da pasta.

Na manhã desta segunda, uma comissão de conselheiros e do Sindsaúde-RN reuniu-se com a direção do hospital e em seguida percorreu todos os setores, inclusive a pediatria, cujo fechamento está sendo preparado.

A crise é percebida pela sujeira no hospital. Dos 39 terceirizados que atuavam na limpeza, a Sesap manteve apenas 14, que se revezam em grupos de apenas três ou quatro por plantão. “Não dá pra fazer a limpeza toda. A gente recolhe o lixo e tenta limpar o que dá”, admite um servidor da limpeza. Durante à noite, a escala conta com apenas um funcionário para a limpeza de todo o hospital, que tem 98 banheiros.

Em uma enfermaria, a comissão encontrou uma acompanhante limpando o banheiro, com um balde e água sanitária. Ela usava apenas sandálias. “A enfermeira me avisou que eu não poderia fazer isso, que corro risco, mas vou fazer o que? Deixar meu pai, que está com uma bactéria, exposto a essa sujeira?”, questiona. Em outros setores, acompanhantes também disseram se revezar na limpeza. A falta de higienização se repete em outros locais, como a nutrição.

Desabastecimento

A crise afeta a quantidade de servidores, insuficiente para fechar a escala, e o abastecimento de materiais e insumos. “Há um estudo aqui que mostra que, entre os pacientes que foram à óbito, 94% deles deixaram de fazer algum procedimento ou medicamento que estava em falta”, contou uma enfermeira, em reunião com a comissão. Os enfermeiros estão em greve há quase um mês, por condições de trabalho.

A visita à farmácia confirma o desabastecimento. A maior parte da caixas estava vazia, sem materiais como cateteres e fita de medição HGT. Alguns itens estavam perto de acabar, como glicose. “O que estamos fazendo aqui todos dias é a morte assistida”, afirmou outro profissional.

Fechamento da pediatria e redução de serviços

Em memorando aos setores, o colegiado e a direção do Giselda Trigueiro comunicaram uma série de medidas diante da crise, como forma de ‘reduzir os danos’: Restrição de internamentos aos casos imprescindíveis; redução dos leitos das enfermarias, redução de refeições para pacientes e acompanhantes e da quantidade de acompanhantes, manutenção apenas de serviços essenciais no ambulatório (medicações, etc). As medidas serão comunicadas à Sesap.

Há ainda a decisão de fechamento da Pediatria, que atende crianças com AIDS, doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti, vítimas de picadas de escorpiões, etc. Profissionais e mães receberam a notícia com tristeza. “Ficamos oito anos fechados e estamos há sete funcionando. Ai já querem fechar de novo”, lamenta uma servidora. “Aqui é ótimo para a minha filha. Tem até uma brinquedoteca, o atendimento e o espaço são excelentes. Não será a mesma coisa em outro hospital”, protesta uma das mães, que já estão se reunindo para protestar.

Os pacientes da pediatria passariam a ser atendidos nos hospitais Walfredo Gurgel e Maria Alice Fernandes, que hoje passam por dificuldades para completar a escala do mês. “É a lógica do cobertor curto. Mantém um serviço fechando outro. A população – e as crianças – saem perdendo”, critica Rosália Fernandes, do Sindsaúde-RN.